domingo, 24 de agosto de 2008

Todo dia

Ryta de Cássia canta Rodrigo Maranhão

(do disco Bicho Doméstico)


Aos que gostaram, tem mais música aqui. Recomendo a extraordinária Deus há de ser.

sábado, 23 de agosto de 2008

Luna



Luna que el barro se mese en la espuma 
de todas las noches de mi soledad 
sigo los pasos que tu me señalas 
desde tu regreso hasta mi final 
veo mi reflejo en tus charcos de sangre 
y siento perpetua la tranquilidad 
de tiempos pasados de hombres antiguos
oh voces, oh luces, dejando señal

(Lila Downs, no disco Árbol de Vida)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Língua de Babel



Por Carlos Careqa, no disco Não sou filho de ninguém

Ouça aqui:

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Palavra viva de Osman Lins

A lenta rotação da água, em torno de sua vária natureza. Sua oscilação entre a paz dos copos e as inundações. Talvez seja mineral; ou um ser mitológico; ou uma planta, um liame, enredando continentes, ilhas. Pode ser um bicho, peixe imenso, que tragou escuridões e abismos, com todas as conchas, anêmonas, delfins, baleias e tesouros naufragados. Desejaria ter, talvez, a definição das pedras; e nunca se define. Invisível. Visível. Trespassável. Dura. Amiga. Existem os ciclones, as trombas marinhas. Golpes de barbatanas? E também as nuvens, frutos que, maduros, tombam em chuvas. O peixe as absorve e cresce. Então este peixe, verde e ramal, de prata e sal, dele próprio se nutre? Bebe a sua própria sede? Come sua fome? Nada em si mesmo? Não saberemos jamais sobre este ente fugidio, lustral, obscuro, claro e avassalador. Tenho-o nos meus olhos, dentro das pupilas. Não sei portanto se o vejo; se é ele que se vê.

Do conto Retábulo de Santa Joana Carolina, uma das narrativas do livro Nove Novena.

domingo, 10 de agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

preto da cor de Rubi


Rubi é goiano, é cantor e é gente muito boa. Tem três discos gravados. O último (chama-se Paisagem Humana) e saiu esse ano.


Escutem ele cantando Você me chamou de nêgo, composição de Gasolina:

domingo, 27 de julho de 2008

Lo tuyo es puro teatro...


Revendo hoje o filme Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988) lembrei dos vários motivos que me fizeram colocar Almodóvar entre meus diretores de cinema preferidos.

A linguagem de Almodóvar é exagerada em todos os sentidos: desde os temas polêmicos e personagens extravagantes até os figurinos e cenários de colorido berrante. Mas a classe com que ele maneja os movimentos de câmera quase nunca é lembrada, assim como sua capacidade magistral de integrar atuações, música e outras artes nos espaços que cria em seus filmes.

Seus últimos filmes são bem comportados se comparados com trabalhos mais antigos como Kika (1993) ou A lei do desejo (1987), mas as marcas de seu estilo de direção continuam visíveis e inconfundíveis. 

Deixo vocês ao som de Puro Teatro, da trilha sonora de Mulheres... Quem canta é a diva cubana La Lupe. A canção resume bem a mistura emoção desbragada e poesia numa performance exagerada em todos os sentidos, bem ao gosto de Almodóvar.

Clique aqui para escutar:

quinta-feira, 10 de julho de 2008

As cidades de Vitor Ramil



Lendo o romance Satolep, do gaúcho Vitor Ramil: uma recriação literária da cidade de Pelotas, experiência muito interessante.

O livro me fez lembrar da música de Ramil, que também é compositor. Mais especificamente, lembrei de uma canção em que ele resume uma teoria recorrente em sua obra: a "estética do frio".


A canção, que tem o nome de Milonga de Sete Cidades (A estética do frio), é um passeio por sete cidades que representam os sete valores principais da estética do frio: Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza, Leveza e Melancolia.

Gosto muito de lugares usados como metáforas. Ou ainda, metáforas usadas como lugares criados para expressar alguma coisa. Lugares que são expressão pura...

Ouça aqui a canção:



quarta-feira, 9 de julho de 2008

Convite

Segunda-feira que vem, 19h na livraria Cultura.

Lançamento de uma antologia com textos de novos autores de Pernambuco.

Participo com três poemas.

Será que virei "nova literatura"?


segunda-feira, 7 de julho de 2008

Marulho

a mão que alisa meus cabelos
tem o barulho de dentro da concha

assanha os planos e pensamentos
de uma vida bem comportada

(movimento escondido
em forma de asa
no búzio da cabeça)

não preciso abrir os olhos
para ver o gesto da mesma mão
enrolando uma onda de volta pro mar
e fazendo calar o passado insistente

um respiro do céu
desabotoa angústias
na tarde de azul e calma

enquanto cada coisa
encontra seu lugar
nos recantos do vento

domingo, 6 de julho de 2008

sem título

fones de ouvido bem acomodados às formas incertas da cabeça. alta fidelidade na reprodução do silêncio da noite. 
do lado de fora, uma promessa vaga que não chega a se transformar em amanhã. vento quase simples, frio sem passado. as linhas das páginas desarranjadas pela falta de luz. e o tempo escrevendo nos relógios sua música sem movimento.
presente. 
fora do embrulho, os momentos murcham logo. bolhas de sabão. efêmeras oportunidades de beleza no espaço entre as paredes imaginárias deste quarto. plano infinito. janela sem eixo. 
talvez alguma idéia apareça na superfície do próximo instante. ou então, tudo terá sido apenas mais uma onda sem saída. desfeita em água de sonho.

sábado, 5 de julho de 2008

Canção

Zanza daqui
Zanza p'racolá
Fim de feira
Periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim, vamos embora...

(Chico Buarque, Assentamento)


Versos que valem uma carreira de compositor.

sábado, 7 de junho de 2008

El poeta que no sabía leer

Canción tradicional peruana

(cantada por Susana Baca)



Yo no conosco la O

mas dicen que es redondita


Mi madre tan pobrecita

que a mi no me la enzeñó


Las letras se van al diablo

porque escribirlas no sé


Pero yo cuando les hablo

pero yo cuando les hablo

todas se ponen de pié

quinta-feira, 5 de junho de 2008

texto e obra

Roland Barthes          Paul Zumthor
                                                                                 


uma pequena reflexão que ainda não achou lugar melhor para ser desenvolvida...



Pesquisando a palavra cantada desde o ano passado, já me deparei com vários tipos de idéias e proposições de abordagem. Sob quase todas essas articulações teóricas que pude conhecer, pulsam algumas questões comuns que dizem respeito a limites: limites entre a palavra escrita e a falada/cantada; entre a literatura e a música; entre a enunciação e a recepção. Questões que nos fazem refletir sobre conceitos que precisam ser sempre repensados porque são vivos e não estanques.

Pensar a canção a partir de um ponto de vista literário significa  "entreabrir conceitos exageradamente voltados sobre eles mesmos em nossa tradição".  O texto escrito deixa de ser suficiente na produção do sentido, e somos obrigados a introduzir o "corpo vivo" na noção de literatura, já que "a performance é o único modo vivo de comunicação poética". Não fui eu que elaborei essa idéia, mas Paul Zumthor, medievalista suíço estudioso das manifestações da oralidade.

Zumthor dialoga com os teóricos da literatura na busca de uma ampliação de perspectivas para o estudo da literatura não como uma arte isolada, mas integrada a outras manifestações expressivas.

Desde o início de minha pesquisa, um ensaio de Roland Barthes  chamado "Da obra ao texto" tem sido importante fonte de reflexão e diálogo com outras idéias. Neste ensaio, Barthes desenvolve os conceitos de obra (algo fechado em si mesmo, completo e acabado) e texto (algo que transborda a obra, um campo epistemológico que se abre à construção do sentido). Deste modo, continua Barthes, se a noção de obra acompanha o que ele chama de Doxa (a opinião coletiva, condicionada por fatores históricos, sociais e políticos), a noção de texto seria sempre paradoxal. Ele explica em outras palavras: enquanto a obra acompanha o conceito de literatura vigente em um determinado contexto, o texto sempre desafia esse conceito e o obriga a uma constante revisão e ampliação.

Eis que, lendo Paul Zumthor e acompanhando seu desenvolvimento da idéia de performance, descubro um importante paralelo entre seu pensamento e as idéias expostas por Barthes.

A ironia é que eles usam palavras opostas para falar das mesmas idéias:
Barthes opõe obra (fechada, estanque, condicionada) e texto (aberto, plural, dinâmico). Já Zumthor opõe texto (a palavra escrita, enunciado mais ou menos definido) a obra (tudo que é comunicado, a manifestação viva da palavra num contexto mais amplo que o escrito). Obviamente eles falam sob pontos de vista distintos, daí a diferença na denominação dos conceitos: Barthes toma o texto escrito como ponto de partida e de chegada, enquanto Zumthor parte do texto para examinar as manifestações da voz humana, mais complexas e difíceis de serem apreendidas e interpretadas.

O importante é que ambos os casos apontam para uma abertura conceitual que abre novos caminhos na análise das manifestações da palavra (seja escrita ou oral) e nos incita a dissecar antigas definições para reexaminar sua validade teórica, tendo em vista a multiplicidade e o movimento das manifestações artísticas produzidas pelo ser humano.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mortal Loucura

(Gregório de Matos musicado por Zé Miguel Wisnik)


Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra.

Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

Ó voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.



Ouça aqui.

domingo, 25 de maio de 2008

Contribución al estudio de la bruma

Félix Pita Rodríguez (Cuba, 1909-1990)

A Gustavo Eguren
que las ha visto


Las gaviotas nocturnas son de austeras costumbres.
Generalmente anidan en las ramas más altas
de los cierzos perdidos del invierno. Se alimentan de escarcha,
de los frutos maduros de la niebla y de las taciturnas
flores de la esperanza. Son calladas y mueren con frecuencia
víctimas de esa fiebre de incurables nostalgias
que diezma a los delfines más australes.
No tienem descendencia.

Se reproducen solas, de las plumas que pierden
las tormentas que a veces se extravían,
cuando imprudentes cruzan, sin las cartas de ruta,
por las noches polares.
Jamás hablan de amor,
desconocen la guerra, y tienen la costumbre de la duda.

Su extinción causaría daños irreparables,
pues sólo ellas conocen las fórmulas secretas
de las destilaciones del sudor de agonía,
recogido en las frentes de aquellos que murieron,
víctimas de la cólera de las grandes tormentas,
en las noches más frías.
Sudor que destilado según viejas fórmulas
que custodian severas las gaviotas nocturnas,
produce los aceites esenciales
con los que gota a gota se fabrica la bruma.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Passeio noturno

Beleza aguda é angústia na memória das retinas. Mas o olho da lua se abre no céu, e é quase como se faltasse alguma coisa naquela despreocupada imensidão. Meu corpo se faz nômade, caminhante de lugar nenhum, deitado sobre a tríplice fronteira. Nos braços, a areia se estendendo para além do mundo - porto que já não sabe das âncoras -, nos pés as ondas de um oceano raso - lençol de sereias - e no rosto o vento salgado que espalha estrelas junto com os pingos da chuva que inaugura a noite. De repente, ficou tarde demais. O escuro tem mil tons de azul que não deixam ver as marcas escritas por meus pés no espelho d’água. Aqui, a terra acaba. Somente o horizonte tem razão, quando quer entender como a paisagem se escreve por quem a vê. Na hora de voltar para casa, estou branco de espuma quarada em quintal de lua. O mar já não faz barulhos para quem conhece as ondas por dentro. Apenas escuto uma canção longínqua anunciando, quem sabe, lágrimas de saudade satisfeita ou a impossibilidade de voltar atrás. Sinto no peito a concha do coração me contando em sua língua de búzio sobre a vigília muda que me acompanha por todos os lugares. Agradeço numa reza em forma de mergulho: peixe que não entende o dialeto da rede.

22/12/2007

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Abandono

na sala vazia
a presença do espelho

atmosfera estagnada
que abre os olhos

para um mundo
onde o passado
persiste

único
e real

terça-feira, 6 de maio de 2008

Ani...




my i.q. (ani difranco)




when i was four years old
they tried to test my i.q.
they showed me a picture
of 3 oranges and a pear
they said,
which one is different?
it does not belong
they taught me different is wrong
but when i was 13 years old
i woke up one morning
thighs covered in blood
like a war
like a warning
that i live in a breakable takeable body
an ever increasingly valuable body
that a woman had come in the night to replace me
deface me
see,
my body is borrowed
yeah, i got it on loan
for the time in between my mom and some maggots
i don't need anyone to hold me
i can hold my own
i got highways for stretchmarks
see where i've grown
i sing sometimes
like my life is at stake
'cause you're only as loud
as the noises you make
i'm learning to laugh as hard
as i can listen
'cause silence
is violence
in women and poor people
if more people were screaming then i could relax
but a good brain ain't diddley
if you don't have the facts
we live in a breakable takeable world
an ever available possible world
and we can make music
like we can make do
genius is in a back beat
backseat to nothing if you're dancing
especially something stupid
like i.q.
for every lie i unlearn
i learn something new
i sing sometimes for the war that i fight
'cause every tool is a weapon -
if you hold it right.


domingo, 4 de maio de 2008

o nomadismo e a terra da memória

(foto de Xavier Cantat)

teatro de gestos. a palavra pronunciada pelo movimento. e pela música. voz de corpos que contam histórias. contos de um mar distante. casa de oceano, barcos e vento. depois, o sertão de desterro e desencontro.

andar em círculos é saber que não se abandona o umbigo. e que solidão compartilhada é matéria de vida.

[compagnie dos à deux - théâtre gestuel. espetáculo 'saudade em terras d'água']