segunda-feira, 17 de novembro de 2008

crítica literária para principiantes


Macanudo, por Liniers
(clique na imagem para ampliar)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Equilibrismo




Andando pelo planeta, peguei um avião. Pensei que voar fosse deixar de usar pés e pernas. Me enganei. Lá em cima existem estradas diferentes, mas os passos são os mesmos daqui de baixo.

As redes das conexões à distância formam pontes no ar. Palmilhar esses caminhos de vento exige cuidado. No início, tive medo de que não aguentassem meu peso. Dei o primeiro passo como quem pula, já provando na pele a dureza final do chão.

Caí com os dois pés amparados pela percepção do invisível. Caí em pé, descalçado. Caí em cheio na metade-vertigem do mundo. Caí no teto do tempo, pelo lado de dentro da sua casa. Caí sem jeito de ginasta, perdendo a pose. Caí em mim.

De olhos fechados, ouvia a respiração do universo. Pausas mais eloqüentes que qualquer palavra humana. Era o estado puro do som. Matéria-prima do silêncio. O silêncio sagrado. Silêncio perdido no meio do ruído das preces desesperadas. Aqui, o silêncio se fazia não-palavra. Silêncio texto. Sintaxe completa dos sentidos possíveis. Todos.

Senti que já podia baixar os braços abertos. Era como se as direções se misturassem. Os lados se dissolvessem em um só plano. Era líquida aquela dimensão. Minha verticalidade de bípede orgulhoso era apenas costume. Nada poderia me salvar agora.

A morte poderia ser assim, pensei. Mas eram tão vivos aqueles instantes.

Talvez fosse apenas o estranhamento por ter descoberto uma nova possibilidade de caminhar. Talvez fosse o lirismo provocado pela falta de gravidade. Talvez fosse apenas um sonho breve de eternidade. 

Nenhuma coisa é certa. Não existe moral da história. Não existe história. Nem fim. Os lados do equilíbrio se anulam em vida. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

doida canção que não fui eu que fiz

Quando se for esse fim
de som
Doida canção que não fui eu
que fiz

Verde luz
Verde cor
de arrebentação

Sargaço mar
Sargaço ar
Deusa de amor
Deusa do mar

Vou me atirar 
Beber o mar
Alucinado, desesperar
Querer morrer
Para viver
Com Iemanjá

Iemanjá, Odô-yá


- Dorival na voz de Calcanhotto: não me sai da cabeça...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

poema

meio-dia



o calor

retine:


asfalto que verga

vidro que derrete.



a paisagem é

onda concreta;


o sol líquido,

retina

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Anaïs Mitchell

Já tinha falado de Anaïs Mitchell por aqui. Excelente compositora, ela agora está gravando em disco a trilha sonora do espetáculo Hadestown, definido por ela mesma como uma "folk opera". Enquanto não sai o disco, um videozinho com uma das "árias"...



(ela não aparece neste vídeo, mas tem fotos e músicas dela aqui)

sábado, 4 de outubro de 2008

Verde instabilidade

"La symbolique du vert s'est presque entièrement organisée autour de cette notion: il représente tout ce qui bouge, change, varie. Le vert est la couleur du hasard, du jeu, du destin, du sort, de la chance… [...] Le vert représente la chance mais aussi la malchance, la fortune mais aussi l'infortune, l'amour naissant mais aussi l'amour infidèle, l'immaturité (des fruits verts) mais aussi la vigueur (un vieillard vert)... Au fil du temps, c'est la dimension négative qui l'a emporté: à cause de son ambiguïté, cette couleur a toujours inquiété"

Michel Pastoureau (em entrevista ao L'Express)

Este blog não poderia ter título e cores que combinassem mais, não é mesmo?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Geraldino Brasil

Com agradecimento especial a Renata Soriano, que me apresentou à poesia de G.B. 

Sortimento de Lembranças

(Ao poeta Jó Patriota)

Vezes me lembro do menino com asma
numa carreira doida na ladeira.
Fôra o luar que vestira de fantasma
folha seca enforcada na palmeira.

Bagagens de lembranças... de brinquedos,
de alvoradas, de tardes e de luas;
do remanso do rio e moças nuas
revelando ao menino seus segredos.

Numa noite de junho - ainda me lembro - 
o galo do quintal cantou tão claro
que o mês de junho amanheceu setembro.

Outra vez eu olhava um céu de estrelas:
tantas que quatro ou cinco despencaram
e um sapo pulou n'água pra comê-las.

(Maragogi/AL, 1979)

Do livro Um soneto de sol para Cézanne e outros sonetos

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Marginal




"Um livro de poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia é na calçada"

Sérgio Sampaio, compositor popular

Cantar e brincar


Cris Aflalo canta Xerêm (compositor cearense que é vovô dela). Faixa do disco Só Xerêm.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Navalhanaliga

Nada pode tudo na vida.

Por que toda estrela pisca no céu
E o cometa risca?

Por que você não se arrisca, meu bem
E vem, belisca e petisca?
Por que teu beijo faísca?

Valha navalha na liga
Nada na barriga
Valha navalha

Não se escandalize, não
Tudo isso a gente pensa
Quando entra em transe
Quando sai da crise

Vou dizer não, não, não, não, não, não
Tantas vezes até formar um nome
Até formar seu nome

Valha navalha na liga/nada pode tudo na vida

Falta de sorte
Fui me corrigir
Errei


(Alice Ruiz via Itamar Assumpção)

sábado, 20 de setembro de 2008

Pra Maria Cilene

Depois melhora
(Luiz Tatit)

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora
E com o tempo vira um sentimento
Que nem sempre aflora, mas que fica na memória
Depois vira um sofrimento que corrói tudo por dentro
Que penetra no organismo, que devora
Mas depois também melhora

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora
E com o tempo torna-se um tormento
Que castiga, deteriora, feito ave predatória
Depois vira um instrumento de martírio duro e lento
Uma queda num abismo que apavora
Mas depois também melhora

E vira então uma força inexplicável
Que deixa todo mundo mais amável
Um pouco é conseqüência da saudade
Um pouco é que voltou a felicidade
Um pouco é que também já era hora
Um pouco é pra ninguém mais ir embora

Vira uma esperança
Cresce de um jeito
Que a gente até balança
Enfim
Às vezes dói bastante, mas melhora
Enfim
É só felicidade
Aqui agora
É bom

É bom não falar muito
Que piora
Enfim
É só felicidade

Canto de cozinha

Gero Camilo, Rubi, Ceumar, Kleber Albuquerque e Tata Fernandes

Em participação especial no disco  Desvio, de Kleber Abuquerque.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

"sou a vida oferecida como dança"

Kátia B. canta Só deixo meu coração na mão de quem pode, com Fausto Fawcett.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Jardín Japonés




             La piedra

entre la blanca arena rastrillada

no fue traída por la violenta naturaleza.

          Fue escogida por el espíritu

de un hombre callado

        y colocada,

no en el centro del jardín,

sino desplazada hacia el Este 

                también por su espíritu.


No más alta que tu rodilla,

la piedra te pide silencio. Hay tanto ruido

de palabras gesticulantes y arrogantes

que pugnan por representar

                  sin majestad

las equivocaciones del mundo.


Tú mira la piedra y aprende: ella,

             con humildad y discreción,

en la luz flotante de la tarde,

representa

       una montaña.



José Watanabe, poeta peruano (1945-2007)


domingo, 24 de agosto de 2008

Todo dia

Ryta de Cássia canta Rodrigo Maranhão

(do disco Bicho Doméstico)


Aos que gostaram, tem mais música aqui. Recomendo a extraordinária Deus há de ser.

sábado, 23 de agosto de 2008

Luna



Luna que el barro se mese en la espuma 
de todas las noches de mi soledad 
sigo los pasos que tu me señalas 
desde tu regreso hasta mi final 
veo mi reflejo en tus charcos de sangre 
y siento perpetua la tranquilidad 
de tiempos pasados de hombres antiguos
oh voces, oh luces, dejando señal

(Lila Downs, no disco Árbol de Vida)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Língua de Babel



Por Carlos Careqa, no disco Não sou filho de ninguém

Ouça aqui:

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Palavra viva de Osman Lins

A lenta rotação da água, em torno de sua vária natureza. Sua oscilação entre a paz dos copos e as inundações. Talvez seja mineral; ou um ser mitológico; ou uma planta, um liame, enredando continentes, ilhas. Pode ser um bicho, peixe imenso, que tragou escuridões e abismos, com todas as conchas, anêmonas, delfins, baleias e tesouros naufragados. Desejaria ter, talvez, a definição das pedras; e nunca se define. Invisível. Visível. Trespassável. Dura. Amiga. Existem os ciclones, as trombas marinhas. Golpes de barbatanas? E também as nuvens, frutos que, maduros, tombam em chuvas. O peixe as absorve e cresce. Então este peixe, verde e ramal, de prata e sal, dele próprio se nutre? Bebe a sua própria sede? Come sua fome? Nada em si mesmo? Não saberemos jamais sobre este ente fugidio, lustral, obscuro, claro e avassalador. Tenho-o nos meus olhos, dentro das pupilas. Não sei portanto se o vejo; se é ele que se vê.

Do conto Retábulo de Santa Joana Carolina, uma das narrativas do livro Nove Novena.

domingo, 10 de agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

preto da cor de Rubi


Rubi é goiano, é cantor e é gente muito boa. Tem três discos gravados. O último (chama-se Paisagem Humana) e saiu esse ano.


Escutem ele cantando Você me chamou de nêgo, composição de Gasolina: