quinta-feira, 8 de maio de 2008

Passeio noturno

Beleza aguda é angústia na memória das retinas. Mas o olho da lua se abre no céu, e é quase como se faltasse alguma coisa naquela despreocupada imensidão. Meu corpo se faz nômade, caminhante de lugar nenhum, deitado sobre a tríplice fronteira. Nos braços, a areia se estendendo para além do mundo - porto que já não sabe das âncoras -, nos pés as ondas de um oceano raso - lençol de sereias - e no rosto o vento salgado que espalha estrelas junto com os pingos da chuva que inaugura a noite. De repente, ficou tarde demais. O escuro tem mil tons de azul que não deixam ver as marcas escritas por meus pés no espelho d’água. Aqui, a terra acaba. Somente o horizonte tem razão, quando quer entender como a paisagem se escreve por quem a vê. Na hora de voltar para casa, estou branco de espuma quarada em quintal de lua. O mar já não faz barulhos para quem conhece as ondas por dentro. Apenas escuto uma canção longínqua anunciando, quem sabe, lágrimas de saudade satisfeita ou a impossibilidade de voltar atrás. Sinto no peito a concha do coração me contando em sua língua de búzio sobre a vigília muda que me acompanha por todos os lugares. Agradeço numa reza em forma de mergulho: peixe que não entende o dialeto da rede.

22/12/2007

2 comentários:

Fernando disse...

Acabei de conhecer seu espaço. Confirmo minha preferência pela prosa, pois mesmo na sua, sinto muito mais poesia.

Mirtes disse...

Sempre tenho certeza de encontrar uma bela pausa da correria neste espaço... um grande beijo, Con! Saudades.