segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Diáfano


A paixão caminha pelo ar. Evapora, mas continua visível. É o vermelho de uma taça de vinho. O reflexo da luz no corpo da pessoa amada. Ou as saliências por baixo da roupa de uma pessoa que passa. Pode ser o movimento do seu próprio corpo, quando ninguém está prestando atenção. As voltas da água que desce pela sua garganta em resposta à sede. É o olhar e o que ele desperta. Por dentro. 

Também pode ser memória. Uma voz que já foi familiar. A geografia íntima que as mãos conheceram de cor. Nomes. Cores. Timbres. Cheiros. Os primeiros acordes de uma canção que hoje soa no passado. Cartas escritas com capricho e cuidado, para sempre fechadas em seus envelopes velhos. Alguma coisa que já brilhou. Um dia.

A paixão mora no instante volátil em que o sentimento pode ser pesado e medido. Algumas vezes cabe na palma da mão. Outras não cabe em si, e quer rasgar. Sempre lateja. Arde. Dói. Sufoca. Grita com vontade de explodir o tempo. A paixão não tem espaço. Ocupa uma dimensão maior que o ser. Ela nega o ser, em nome de nada. É gratuita. E vasta. E vã.

Talvez seja possível entender seus caminhos. Certamente se pode provar seu sabor fugaz. Mas a paixão não mora na palavra que a define. Nem em palavra nenhuma que a provoque. Não existe fala ou canto que possa fixá-la. Ao longo de toda a história da humanidade. Através de pinturas, danças e filmes. Dirigindo olhares, discursos e ações. A paixão simplesmente passa. A paixão simplesmente. A paixão.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Tempos de Natal

(Track 08 - River)


Windy times. That restless wind brought by the month of December, along with the crowds invading the shopping malls and making all domestic tasks more difficult because of the giant queues and traffic jams. 

Maybe the wind made people more uneasy about themselves. By now, everyone was starting to get somewhat tired of seeing the same four digit number printed on top of all the sheets of the already wore-out calendar. 

December is a time of the year when almost everything seems to be finally falling into place. Things like work, personal projects or relationships usually tend to wait for a time like that,  when matters can be resolved without the guilty feeling of not having given enough time for the problems to look for a solution. December is a time of the year when things can be comfortably left-off where they are, or even completely forgotten while one would give in to the flow of the streets, not without some fear of drowning in the strong currents.

Of course all that is an illusion, for any happy member of the capitalist society knows that things do not have an ideal time of the year to begin or to end, despite what the boss, lover or television would say. Nevertheless, December appears to be a good month to end or begin things. A time as good as any other time of the year, had it not been for its vague sense of closure. A sudden perception that the year is almost over and there’s little time left to fix what still needs repair before the new year starts to show you the uselessness of all your new year’s resolutions. 

Another well-known fact is that when all appear to be settled, there’s always a feeling of incompleteness that haunts the soul and starts an internal movement that could easily be confused with the nasty wind blowing out there in the streets and annoying the shoppers with all those bags and packs. Most of them would come back to an empty apartment and eat a microwave meal while watching the same television show until they fall fast asleep before midnight. Everybody knows shopping is tiresome.

December represents the impossible desire of making a lot of money and then quit this crazy scene. One more month, you think, until you have enough to quit your job, leave your lover and start over doing what you like to do the way you’ve always wanted to do it. Your way. Next month. December couldn’t be better as the last month month of your old life. The timing is perfect.

And then, when your lover begins to cry as soon as you start talking about your plans, all that freedom suddenly vanishes and is quickly replaced by guilt. What an ungrateful person you are, having such a nice job and such a caring lover. What do you take your life for? What do you expect to get with these crazy plans? And just now that you are buying a new apartment. You still have an awful lot of shopping to do. Couldn’t you wait until next year and not spoil the holidays? 

December is a windy time of the year. A perfect time to make a change. That’s your lover talking. You two are so lucky to have found a shop on sale when the prices are going sky-high because of the holidays. And you still have some time until New Year arrives with its promises of happiness and fulfillment. It’s incredible how the streets are busy. It’s almost like a river of people going in all directions at once. It never stops its flow and it makes you want to hold your breath. But it’s so beautiful it also makes you want to say ‘thank you god’ for the crazy world and for its twists and turns. Your lover smiles back at you and says you just have to be cautious not to let the wind make you drop the shopping bags. 


(Da série 10 shades of blue, escrita para o disco Blue de Joni Mitchell)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Memórias

Pesquisando exaustivamente sobre memória, cheguei a algumas conclusões, pessoais demais para serem expostas aqui, ou mesmo partilhadas verbalmente com quem quer que seja. Aliás, esta é a principal conclusão: as memórias têm um ciclo de existência personalíssimo. Não sei se acredito que se trata de uma evolução, nem de um desenvolvimento linear do ponto de vista temporal. São mesmo ciclos, cujos ritmos são determinados pelas idiossincrasias de cada um. As memórias vão e vêm... Aparecem, desaparecem e reaparecem, modificando-se e modificando-nos a cada novo contato. É um processo vivo, sem cheiro de fundo de baú. As memórias não têm medo da luz do sol, nem de movimento. As memórias são por demais ousadas. Invadem nossa vida quando bem entendem, sem dar motivos, e vêm nos exigir uma posição. Elas nos perguntam: quem é você? O passado passou, mas e você? Eu, muito ocupado com o presente (e como ele nos toma tempo!), não tenho tido paciência com o passado. Minhas elaborações intelectuais sobre a memória me fazem olhar cada vez mais para o futuro. Me fazem entender que o futuro se constrói dentro do agora. É o passado que me diz para seguir em frente. Mas ele diz isso sem saber. Onde o passado diz: olha pra mim! Eu escuto: vai em frente! Anda logo! E eu vou. Não vou pedir desculpas ao passado se ele bater na minha porta e eu não estiver lá para atender...



terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O movimento do corpo e a imagem em movimento

Companhia canadense Lalala Human Steps, do filme "Amelia", dirigido pelo coreógrafo Édouard Lock.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Bichos

Existem números que são percebidos visualmente: dois, três, seis. Baratas que saem debaixo da caixa que levanto para ver se há mais alguma coisa para arrumar naquele quarto vazio e sujo. Seis, nove, doze. Baratas demais para contar. Asas translúcidas, patas aos pares. Três, três, seis. Parece insuficiente falar de asas e patas quando se descreve uma barata. A barata é um bicho que voa. Não... isso também é insuficiente. O que dizer então? Que elas não me assustam como deveriam? Não conheço o nojo. Deixo que passem por cima dos meus pés, em direção a qualquer outro lugar onde possam se esconder. Nenhuma delas sobe por minhas pernas. Pernas, pés, dedos, chão. Junto dali dorme um cachorro. Um bicho que tem patas. Insuficientes patas que de nada servem quando me aproximo dele e piso em seu dorso. A sola do pé roça de leve as vértebras. Simétricas. Como os intervalos de tempo entre suas respirações. Forço um pouco o pé: acorda o bicho. Antes que possa latir, sinto sob meus pés seus ossos quebrando. É instantâneo. Penso que antecedi aquela sensação em alguns instantes. Talvez a dor de uma possível culpa me tivesse feito desistir. Não foi o caso. Nenhum remorso. Nada. As baratas já deviam estar bem alojadas em algum canto escuro. Lembrei de suas antenas e do modo como costumavam se mover no ar. Graciosas. Sorri. O cachorro não tinha culpa de nada. Nenhum remorso. E eu não tinha pensamentos na cabeça. Sentimentos debaixo dos meus pés descalços. Chão, dedos, pés, pernas. Cabeça. Vazio. Alma é um lugar que nunca existiu. Pelo menos não no caso dos cachorros. Qualquer defensor dos direitos dos animais concordaria comigo. As baratas são muito mais ameaçadoras. Elas também não têm alma. Imagine se venderiam nos supermercados frascos com veneno para eliminar cachorros? Apesar dos rótulos, os venenos funcionam indiscriminadamente. Os pés não foram feitos para matar. Nunca um cachorro me mordeu. Matei um como se fosse uma barata. Elas não gritam. Depois basta uma vassoura ou um pano de chão molhado. Pode haver até alguém que agradeça o gesto. Estive deitado nesse chão por tempo demais. O frio das lajotas. O sol insuficiente para me descrever. Respirações simétricas e inaudíveis. Contei as baratas que passavam. Números que são percebidos visualmente. Três, quatro, nove. Dois. Pés. Dedos, pernas, caixa. Senti uma pressão nas costas e depois uma ausência. Como se eu não estivesse ali. O quarto vazio. Cabeça inútil. Sem alma por dentro. Quando me acharem não saberão que estive morto o tempo todo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Objetos

Chão


A cada passo, os pés se cobrem de infinitas possibilidades de tropeços que não chegam a tocá-los, mas formam em volta deles uma espécie de parede transparente que acaba por fazer com que as pernas se equilibrem melhor. Cada passo é ornamentado por infinitas possibilidades de quedas. O plano do solo é imaginário, já que se caminha sobre um abismo sem fundo. Um abismo vastíssimo. Pleno de vazio. Não há saída. Não há escapatória. Por esta razão, caminhamos com passos mais seguros. A infinita queda, que efetivamente acontece a cada passo, não é sentida pelos que caminham, pois o vazio é total. Um penhasco precisaria de limites que este vazio não pode oferecer. Em última análise, pouco importa a direção para onde andamos, ou mesmo se estamos ou não na parte superior do solo. O plano do chão é infinito. E a queda, plena, sem as intermitências aparentes da vida.


Cama


É um corpo belo entre os lençóis. Enrodilhado como um verme que se assusta à proximidade do predador. Observando de outra maneira, diria que a pele deste corpo é jovem e viçosa. Deixa perceber as formas de músculos rijos e fortes. Mas tudo isso estragaria a comparação com o verme, branco e pulsátil. E aquele corpo não é nada mais que isso naquele momento: verme assustado e frágil. O predador não seria outro que um passarinho. Observando de outra maneira, diria que sua plumagem tem belas cores e uma textura que evoca inevitáveis vôos pelos céus do mundo. Mas tudo isso se apaga por obra das terríveis garras que ele agora aponta com um olhar afiado ao seu amado verme. O objeto de seu apetite sem escrúpulos. Ave de rapina disfarçada de inofensiva criatura aos olhos nus de qualquer observador incauto. Do passarinho não se pode dizer que tenha o viço que a simples palavra - pele - faz vibrar em que a pronuncia. É bicho sem língua, desprovido das lúbricas sensações que verme e corpo liberam no ar. Secreções venenosas que catalisam tempo. Apenas uma fração de segundo sintetiza eras inteiras: agora um se agita dentro do outro, que será para sempre refém desta refeição.


Cigarro


De repente, sou capaz de fumar por horas a fio. Acompanhando com gosto as volutas que a fumaça desenha dentro dos meus pulmões, a caminho das vias respiratórias superiores. A destreza de um rio voluntário que caminha não com membros de água, mas com a fugacidade de um olhar diáfano. Mesmo sem elaborar em palavras, é isso que sinto quando puxo a fumaça para dentro de mim. O ar cinzento passa pelo interior gelatinoso da garganta quase sem atrito. Apenas o suficiente para que eu sinta quando já é hora de iniciar o movimento contrário. Penso que se estivesse dentro do mar numa noite escura e quente sentiria algo muito parecido, apesar das advertências de que a água salgada esconde perigos invisíveis (dos quais sempre duvidarei). Sinto o arrastar calmo das ondas em seu movimento lânguido. Sinto uma serenidade não compatível com qualquer tipo de movimento ou adjetivos. Entretanto, lá estão as palavras a se moverem. Frêmito, vento, espirais... Intermináveis instantes se passam antes que eu possa me dar conta de que estou preso numa ilusão: nos sonhos não há olfato ou paladar.


Sandálias


Não escuto o mar, mas posso vê-lo do alto da janela de um domingo transparente que retine de claridade. A calma cotidiana chega trazendo uma saudade que há muito não lembrava que existia. O chão frio de ladrilhos já nem se lembra da madrugada silenciosa que passou ignorando a própria insônia. Dois abraços acordam na mesma hora e se olham com o espanto habitual das horas felizes. Todo o mundo de preocupações e compromissos; toda a vida de motivos insuficientes, mas peremptórios; tudo que se impõe no caminho da livre vontade; mais ainda, tudo aquilo que esmaga a dança infantil dos desejos mais profundos; e ainda além, toda razão que aniquila e paralisa. Absolutamente tudo se resumia a levantar da cama, vestir uma camiseta e sair pela manhã com a tarefa despreocupada de comprar pão para o desjejum.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Azul





(Pavão Misterioso, Aquarela sobre papel. Dez/08)


segunda-feira, 17 de novembro de 2008

crítica literária para principiantes


Macanudo, por Liniers
(clique na imagem para ampliar)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Equilibrismo




Andando pelo planeta, peguei um avião. Pensei que voar fosse deixar de usar pés e pernas. Me enganei. Lá em cima existem estradas diferentes, mas os passos são os mesmos daqui de baixo.

As redes das conexões à distância formam pontes no ar. Palmilhar esses caminhos de vento exige cuidado. No início, tive medo de que não aguentassem meu peso. Dei o primeiro passo como quem pula, já provando na pele a dureza final do chão.

Caí com os dois pés amparados pela percepção do invisível. Caí em pé, descalçado. Caí em cheio na metade-vertigem do mundo. Caí no teto do tempo, pelo lado de dentro da sua casa. Caí sem jeito de ginasta, perdendo a pose. Caí em mim.

De olhos fechados, ouvia a respiração do universo. Pausas mais eloqüentes que qualquer palavra humana. Era o estado puro do som. Matéria-prima do silêncio. O silêncio sagrado. Silêncio perdido no meio do ruído das preces desesperadas. Aqui, o silêncio se fazia não-palavra. Silêncio texto. Sintaxe completa dos sentidos possíveis. Todos.

Senti que já podia baixar os braços abertos. Era como se as direções se misturassem. Os lados se dissolvessem em um só plano. Era líquida aquela dimensão. Minha verticalidade de bípede orgulhoso era apenas costume. Nada poderia me salvar agora.

A morte poderia ser assim, pensei. Mas eram tão vivos aqueles instantes.

Talvez fosse apenas o estranhamento por ter descoberto uma nova possibilidade de caminhar. Talvez fosse o lirismo provocado pela falta de gravidade. Talvez fosse apenas um sonho breve de eternidade. 

Nenhuma coisa é certa. Não existe moral da história. Não existe história. Nem fim. Os lados do equilíbrio se anulam em vida. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

doida canção que não fui eu que fiz

Quando se for esse fim
de som
Doida canção que não fui eu
que fiz

Verde luz
Verde cor
de arrebentação

Sargaço mar
Sargaço ar
Deusa de amor
Deusa do mar

Vou me atirar 
Beber o mar
Alucinado, desesperar
Querer morrer
Para viver
Com Iemanjá

Iemanjá, Odô-yá


- Dorival na voz de Calcanhotto: não me sai da cabeça...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

poema

meio-dia



o calor

retine:


asfalto que verga

vidro que derrete.



a paisagem é

onda concreta;


o sol líquido,

retina

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Anaïs Mitchell

Já tinha falado de Anaïs Mitchell por aqui. Excelente compositora, ela agora está gravando em disco a trilha sonora do espetáculo Hadestown, definido por ela mesma como uma "folk opera". Enquanto não sai o disco, um videozinho com uma das "árias"...



(ela não aparece neste vídeo, mas tem fotos e músicas dela aqui)

sábado, 4 de outubro de 2008

Verde instabilidade

"La symbolique du vert s'est presque entièrement organisée autour de cette notion: il représente tout ce qui bouge, change, varie. Le vert est la couleur du hasard, du jeu, du destin, du sort, de la chance… [...] Le vert représente la chance mais aussi la malchance, la fortune mais aussi l'infortune, l'amour naissant mais aussi l'amour infidèle, l'immaturité (des fruits verts) mais aussi la vigueur (un vieillard vert)... Au fil du temps, c'est la dimension négative qui l'a emporté: à cause de son ambiguïté, cette couleur a toujours inquiété"

Michel Pastoureau (em entrevista ao L'Express)

Este blog não poderia ter título e cores que combinassem mais, não é mesmo?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Geraldino Brasil

Com agradecimento especial a Renata Soriano, que me apresentou à poesia de G.B. 

Sortimento de Lembranças

(Ao poeta Jó Patriota)

Vezes me lembro do menino com asma
numa carreira doida na ladeira.
Fôra o luar que vestira de fantasma
folha seca enforcada na palmeira.

Bagagens de lembranças... de brinquedos,
de alvoradas, de tardes e de luas;
do remanso do rio e moças nuas
revelando ao menino seus segredos.

Numa noite de junho - ainda me lembro - 
o galo do quintal cantou tão claro
que o mês de junho amanheceu setembro.

Outra vez eu olhava um céu de estrelas:
tantas que quatro ou cinco despencaram
e um sapo pulou n'água pra comê-las.

(Maragogi/AL, 1979)

Do livro Um soneto de sol para Cézanne e outros sonetos

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Marginal




"Um livro de poesia na gaveta não adianta nada
Lugar de poesia é na calçada"

Sérgio Sampaio, compositor popular

Cantar e brincar


Cris Aflalo canta Xerêm (compositor cearense que é vovô dela). Faixa do disco Só Xerêm.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Navalhanaliga

Nada pode tudo na vida.

Por que toda estrela pisca no céu
E o cometa risca?

Por que você não se arrisca, meu bem
E vem, belisca e petisca?
Por que teu beijo faísca?

Valha navalha na liga
Nada na barriga
Valha navalha

Não se escandalize, não
Tudo isso a gente pensa
Quando entra em transe
Quando sai da crise

Vou dizer não, não, não, não, não, não
Tantas vezes até formar um nome
Até formar seu nome

Valha navalha na liga/nada pode tudo na vida

Falta de sorte
Fui me corrigir
Errei


(Alice Ruiz via Itamar Assumpção)

sábado, 20 de setembro de 2008

Pra Maria Cilene

Depois melhora
(Luiz Tatit)

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora
E com o tempo vira um sentimento
Que nem sempre aflora, mas que fica na memória
Depois vira um sofrimento que corrói tudo por dentro
Que penetra no organismo, que devora
Mas depois também melhora

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora
E com o tempo torna-se um tormento
Que castiga, deteriora, feito ave predatória
Depois vira um instrumento de martírio duro e lento
Uma queda num abismo que apavora
Mas depois também melhora

E vira então uma força inexplicável
Que deixa todo mundo mais amável
Um pouco é conseqüência da saudade
Um pouco é que voltou a felicidade
Um pouco é que também já era hora
Um pouco é pra ninguém mais ir embora

Vira uma esperança
Cresce de um jeito
Que a gente até balança
Enfim
Às vezes dói bastante, mas melhora
Enfim
É só felicidade
Aqui agora
É bom

É bom não falar muito
Que piora
Enfim
É só felicidade

Canto de cozinha

Gero Camilo, Rubi, Ceumar, Kleber Albuquerque e Tata Fernandes

Em participação especial no disco  Desvio, de Kleber Abuquerque.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

"sou a vida oferecida como dança"

Kátia B. canta Só deixo meu coração na mão de quem pode, com Fausto Fawcett.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Jardín Japonés




             La piedra

entre la blanca arena rastrillada

no fue traída por la violenta naturaleza.

          Fue escogida por el espíritu

de un hombre callado

        y colocada,

no en el centro del jardín,

sino desplazada hacia el Este 

                también por su espíritu.


No más alta que tu rodilla,

la piedra te pide silencio. Hay tanto ruido

de palabras gesticulantes y arrogantes

que pugnan por representar

                  sin majestad

las equivocaciones del mundo.


Tú mira la piedra y aprende: ella,

             con humildad y discreción,

en la luz flotante de la tarde,

representa

       una montaña.



José Watanabe, poeta peruano (1945-2007)


domingo, 24 de agosto de 2008

Todo dia

Ryta de Cássia canta Rodrigo Maranhão

(do disco Bicho Doméstico)


Aos que gostaram, tem mais música aqui. Recomendo a extraordinária Deus há de ser.

sábado, 23 de agosto de 2008

Luna



Luna que el barro se mese en la espuma 
de todas las noches de mi soledad 
sigo los pasos que tu me señalas 
desde tu regreso hasta mi final 
veo mi reflejo en tus charcos de sangre 
y siento perpetua la tranquilidad 
de tiempos pasados de hombres antiguos
oh voces, oh luces, dejando señal

(Lila Downs, no disco Árbol de Vida)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Língua de Babel



Por Carlos Careqa, no disco Não sou filho de ninguém

Ouça aqui:

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Palavra viva de Osman Lins

A lenta rotação da água, em torno de sua vária natureza. Sua oscilação entre a paz dos copos e as inundações. Talvez seja mineral; ou um ser mitológico; ou uma planta, um liame, enredando continentes, ilhas. Pode ser um bicho, peixe imenso, que tragou escuridões e abismos, com todas as conchas, anêmonas, delfins, baleias e tesouros naufragados. Desejaria ter, talvez, a definição das pedras; e nunca se define. Invisível. Visível. Trespassável. Dura. Amiga. Existem os ciclones, as trombas marinhas. Golpes de barbatanas? E também as nuvens, frutos que, maduros, tombam em chuvas. O peixe as absorve e cresce. Então este peixe, verde e ramal, de prata e sal, dele próprio se nutre? Bebe a sua própria sede? Come sua fome? Nada em si mesmo? Não saberemos jamais sobre este ente fugidio, lustral, obscuro, claro e avassalador. Tenho-o nos meus olhos, dentro das pupilas. Não sei portanto se o vejo; se é ele que se vê.

Do conto Retábulo de Santa Joana Carolina, uma das narrativas do livro Nove Novena.

domingo, 10 de agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

preto da cor de Rubi


Rubi é goiano, é cantor e é gente muito boa. Tem três discos gravados. O último (chama-se Paisagem Humana) e saiu esse ano.


Escutem ele cantando Você me chamou de nêgo, composição de Gasolina:

domingo, 27 de julho de 2008

Lo tuyo es puro teatro...


Revendo hoje o filme Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988) lembrei dos vários motivos que me fizeram colocar Almodóvar entre meus diretores de cinema preferidos.

A linguagem de Almodóvar é exagerada em todos os sentidos: desde os temas polêmicos e personagens extravagantes até os figurinos e cenários de colorido berrante. Mas a classe com que ele maneja os movimentos de câmera quase nunca é lembrada, assim como sua capacidade magistral de integrar atuações, música e outras artes nos espaços que cria em seus filmes.

Seus últimos filmes são bem comportados se comparados com trabalhos mais antigos como Kika (1993) ou A lei do desejo (1987), mas as marcas de seu estilo de direção continuam visíveis e inconfundíveis. 

Deixo vocês ao som de Puro Teatro, da trilha sonora de Mulheres... Quem canta é a diva cubana La Lupe. A canção resume bem a mistura emoção desbragada e poesia numa performance exagerada em todos os sentidos, bem ao gosto de Almodóvar.

Clique aqui para escutar:

quinta-feira, 10 de julho de 2008

As cidades de Vitor Ramil



Lendo o romance Satolep, do gaúcho Vitor Ramil: uma recriação literária da cidade de Pelotas, experiência muito interessante.

O livro me fez lembrar da música de Ramil, que também é compositor. Mais especificamente, lembrei de uma canção em que ele resume uma teoria recorrente em sua obra: a "estética do frio".


A canção, que tem o nome de Milonga de Sete Cidades (A estética do frio), é um passeio por sete cidades que representam os sete valores principais da estética do frio: Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza, Leveza e Melancolia.

Gosto muito de lugares usados como metáforas. Ou ainda, metáforas usadas como lugares criados para expressar alguma coisa. Lugares que são expressão pura...

Ouça aqui a canção:



quarta-feira, 9 de julho de 2008

Convite

Segunda-feira que vem, 19h na livraria Cultura.

Lançamento de uma antologia com textos de novos autores de Pernambuco.

Participo com três poemas.

Será que virei "nova literatura"?


segunda-feira, 7 de julho de 2008

Marulho

a mão que alisa meus cabelos
tem o barulho de dentro da concha

assanha os planos e pensamentos
de uma vida bem comportada

(movimento escondido
em forma de asa
no búzio da cabeça)

não preciso abrir os olhos
para ver o gesto da mesma mão
enrolando uma onda de volta pro mar
e fazendo calar o passado insistente

um respiro do céu
desabotoa angústias
na tarde de azul e calma

enquanto cada coisa
encontra seu lugar
nos recantos do vento

domingo, 6 de julho de 2008

sem título

fones de ouvido bem acomodados às formas incertas da cabeça. alta fidelidade na reprodução do silêncio da noite. 
do lado de fora, uma promessa vaga que não chega a se transformar em amanhã. vento quase simples, frio sem passado. as linhas das páginas desarranjadas pela falta de luz. e o tempo escrevendo nos relógios sua música sem movimento.
presente. 
fora do embrulho, os momentos murcham logo. bolhas de sabão. efêmeras oportunidades de beleza no espaço entre as paredes imaginárias deste quarto. plano infinito. janela sem eixo. 
talvez alguma idéia apareça na superfície do próximo instante. ou então, tudo terá sido apenas mais uma onda sem saída. desfeita em água de sonho.

sábado, 5 de julho de 2008

Canção

Zanza daqui
Zanza p'racolá
Fim de feira
Periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim, vamos embora...

(Chico Buarque, Assentamento)


Versos que valem uma carreira de compositor.

sábado, 7 de junho de 2008

El poeta que no sabía leer

Canción tradicional peruana

(cantada por Susana Baca)



Yo no conosco la O

mas dicen que es redondita


Mi madre tan pobrecita

que a mi no me la enzeñó


Las letras se van al diablo

porque escribirlas no sé


Pero yo cuando les hablo

pero yo cuando les hablo

todas se ponen de pié

quinta-feira, 5 de junho de 2008

texto e obra

Roland Barthes          Paul Zumthor
                                                                                 


uma pequena reflexão que ainda não achou lugar melhor para ser desenvolvida...



Pesquisando a palavra cantada desde o ano passado, já me deparei com vários tipos de idéias e proposições de abordagem. Sob quase todas essas articulações teóricas que pude conhecer, pulsam algumas questões comuns que dizem respeito a limites: limites entre a palavra escrita e a falada/cantada; entre a literatura e a música; entre a enunciação e a recepção. Questões que nos fazem refletir sobre conceitos que precisam ser sempre repensados porque são vivos e não estanques.

Pensar a canção a partir de um ponto de vista literário significa  "entreabrir conceitos exageradamente voltados sobre eles mesmos em nossa tradição".  O texto escrito deixa de ser suficiente na produção do sentido, e somos obrigados a introduzir o "corpo vivo" na noção de literatura, já que "a performance é o único modo vivo de comunicação poética". Não fui eu que elaborei essa idéia, mas Paul Zumthor, medievalista suíço estudioso das manifestações da oralidade.

Zumthor dialoga com os teóricos da literatura na busca de uma ampliação de perspectivas para o estudo da literatura não como uma arte isolada, mas integrada a outras manifestações expressivas.

Desde o início de minha pesquisa, um ensaio de Roland Barthes  chamado "Da obra ao texto" tem sido importante fonte de reflexão e diálogo com outras idéias. Neste ensaio, Barthes desenvolve os conceitos de obra (algo fechado em si mesmo, completo e acabado) e texto (algo que transborda a obra, um campo epistemológico que se abre à construção do sentido). Deste modo, continua Barthes, se a noção de obra acompanha o que ele chama de Doxa (a opinião coletiva, condicionada por fatores históricos, sociais e políticos), a noção de texto seria sempre paradoxal. Ele explica em outras palavras: enquanto a obra acompanha o conceito de literatura vigente em um determinado contexto, o texto sempre desafia esse conceito e o obriga a uma constante revisão e ampliação.

Eis que, lendo Paul Zumthor e acompanhando seu desenvolvimento da idéia de performance, descubro um importante paralelo entre seu pensamento e as idéias expostas por Barthes.

A ironia é que eles usam palavras opostas para falar das mesmas idéias:
Barthes opõe obra (fechada, estanque, condicionada) e texto (aberto, plural, dinâmico). Já Zumthor opõe texto (a palavra escrita, enunciado mais ou menos definido) a obra (tudo que é comunicado, a manifestação viva da palavra num contexto mais amplo que o escrito). Obviamente eles falam sob pontos de vista distintos, daí a diferença na denominação dos conceitos: Barthes toma o texto escrito como ponto de partida e de chegada, enquanto Zumthor parte do texto para examinar as manifestações da voz humana, mais complexas e difíceis de serem apreendidas e interpretadas.

O importante é que ambos os casos apontam para uma abertura conceitual que abre novos caminhos na análise das manifestações da palavra (seja escrita ou oral) e nos incita a dissecar antigas definições para reexaminar sua validade teórica, tendo em vista a multiplicidade e o movimento das manifestações artísticas produzidas pelo ser humano.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Mortal Loucura

(Gregório de Matos musicado por Zé Miguel Wisnik)


Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra.

Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

Ó voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.



Ouça aqui.

domingo, 25 de maio de 2008

Contribución al estudio de la bruma

Félix Pita Rodríguez (Cuba, 1909-1990)

A Gustavo Eguren
que las ha visto


Las gaviotas nocturnas son de austeras costumbres.
Generalmente anidan en las ramas más altas
de los cierzos perdidos del invierno. Se alimentan de escarcha,
de los frutos maduros de la niebla y de las taciturnas
flores de la esperanza. Son calladas y mueren con frecuencia
víctimas de esa fiebre de incurables nostalgias
que diezma a los delfines más australes.
No tienem descendencia.

Se reproducen solas, de las plumas que pierden
las tormentas que a veces se extravían,
cuando imprudentes cruzan, sin las cartas de ruta,
por las noches polares.
Jamás hablan de amor,
desconocen la guerra, y tienen la costumbre de la duda.

Su extinción causaría daños irreparables,
pues sólo ellas conocen las fórmulas secretas
de las destilaciones del sudor de agonía,
recogido en las frentes de aquellos que murieron,
víctimas de la cólera de las grandes tormentas,
en las noches más frías.
Sudor que destilado según viejas fórmulas
que custodian severas las gaviotas nocturnas,
produce los aceites esenciales
con los que gota a gota se fabrica la bruma.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Passeio noturno

Beleza aguda é angústia na memória das retinas. Mas o olho da lua se abre no céu, e é quase como se faltasse alguma coisa naquela despreocupada imensidão. Meu corpo se faz nômade, caminhante de lugar nenhum, deitado sobre a tríplice fronteira. Nos braços, a areia se estendendo para além do mundo - porto que já não sabe das âncoras -, nos pés as ondas de um oceano raso - lençol de sereias - e no rosto o vento salgado que espalha estrelas junto com os pingos da chuva que inaugura a noite. De repente, ficou tarde demais. O escuro tem mil tons de azul que não deixam ver as marcas escritas por meus pés no espelho d’água. Aqui, a terra acaba. Somente o horizonte tem razão, quando quer entender como a paisagem se escreve por quem a vê. Na hora de voltar para casa, estou branco de espuma quarada em quintal de lua. O mar já não faz barulhos para quem conhece as ondas por dentro. Apenas escuto uma canção longínqua anunciando, quem sabe, lágrimas de saudade satisfeita ou a impossibilidade de voltar atrás. Sinto no peito a concha do coração me contando em sua língua de búzio sobre a vigília muda que me acompanha por todos os lugares. Agradeço numa reza em forma de mergulho: peixe que não entende o dialeto da rede.

22/12/2007

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Abandono

na sala vazia
a presença do espelho

atmosfera estagnada
que abre os olhos

para um mundo
onde o passado
persiste

único
e real

terça-feira, 6 de maio de 2008

Ani...




my i.q. (ani difranco)




when i was four years old
they tried to test my i.q.
they showed me a picture
of 3 oranges and a pear
they said,
which one is different?
it does not belong
they taught me different is wrong
but when i was 13 years old
i woke up one morning
thighs covered in blood
like a war
like a warning
that i live in a breakable takeable body
an ever increasingly valuable body
that a woman had come in the night to replace me
deface me
see,
my body is borrowed
yeah, i got it on loan
for the time in between my mom and some maggots
i don't need anyone to hold me
i can hold my own
i got highways for stretchmarks
see where i've grown
i sing sometimes
like my life is at stake
'cause you're only as loud
as the noises you make
i'm learning to laugh as hard
as i can listen
'cause silence
is violence
in women and poor people
if more people were screaming then i could relax
but a good brain ain't diddley
if you don't have the facts
we live in a breakable takeable world
an ever available possible world
and we can make music
like we can make do
genius is in a back beat
backseat to nothing if you're dancing
especially something stupid
like i.q.
for every lie i unlearn
i learn something new
i sing sometimes for the war that i fight
'cause every tool is a weapon -
if you hold it right.


domingo, 4 de maio de 2008

o nomadismo e a terra da memória

(foto de Xavier Cantat)

teatro de gestos. a palavra pronunciada pelo movimento. e pela música. voz de corpos que contam histórias. contos de um mar distante. casa de oceano, barcos e vento. depois, o sertão de desterro e desencontro.

andar em círculos é saber que não se abandona o umbigo. e que solidão compartilhada é matéria de vida.

[compagnie dos à deux - théâtre gestuel. espetáculo 'saudade em terras d'água']


quarta-feira, 23 de abril de 2008

poética da sobrevivência

cortar as palavras
para ver jorrar seu
sangue

repartir o pão
em santíssima
trindade:

apenas letras
imaginadas
no centro da mesa
vazia.

pronunciar o outro
para não esquecer
de si

e de que
resta a pele da voz

quando se faz
impossível
a escrita

domingo, 20 de abril de 2008

São João

o menino dorme
na rede
enquanto a tarde
se arrasta
em mormaço
e sono

seu braço
pendurado
balança sem vontade
e arrasta um bocejo
no chão.

o menino dorme
na rede
solto num instante
que se espraia

sem vento
sem motivo
sem ninguém
que o observe:


esquecido
da vida,
ele se deixa
sonhar

quarta-feira, 16 de abril de 2008

escultura de livro

Papel é matéria prima: para amantes do origami, para desenhistas e desenhadores, para correspondentes que insistem no sistema postal, para fazedores de jornal, para todo mundo que escreve (direto com caneta e lápis ou através da impressora), para quem acha que panfletos funcionam como propaganda... Papel é também matéria-prima de livro.

Livro é matéria-prima: para livreiros e donos de sebos, para professores/alunos/curiosos, para críticos literários, para quem compra por metro romances franceses encadernados em couro para decorar a sala. Livro é matéria-prima para quem não troca a leitura com os cinco sentidos (aquela leitura-abraço) pela tela fria do computador - que facilita muita coisa, mas não dá conta de tudo...

Mas livro de papel também é matéria-prima de escultura. Deixo aqui as palavras e uma imagem da artista inglesa Su Blackwell.


"Paper has been used for communication since its invention; either between humans or in an attempt to communicate with the spirit world. I employ this delicate, accessible medium and use irreversible, destructive processes to reflect on the precariousness of the world we inhabit and the fragility of our life, dreams and ambitions. It is the delicacy, the slight feeling of claustrophobia, as if these characters, the landscape have been trapped inside the book all this time and are now suddenly released. A number of the compositions have an urgency about them, the choices made for the cut-out people from the illustrations seem to lean towards people on their way somewhere, about to discover something, or perhaps escaping from something. And the landscapes speak of a bleak mystery, a rising, an awareness of the air"

Su Blackwell. Mais informações (e imagens) aqui.

terça-feira, 15 de abril de 2008

o sono de Deus

V

Para um Deus, que singular prazer.
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o Senhor de um breve Nada: o homem:
Equação sinistra
Tentando parecença contigo, Executor.

O Senhor do meu canto, dizem? Sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verso minha vida minha cabeça.

Dorme, inventado imprudente menino.
Dorme. Para que o poema aconteça.

(Hilda Hilst: Poemas malditos, gozosos e devotos)

sábado, 12 de abril de 2008

maré areia, mareia

o azul do mar só existe à noite. é ficção de lua. assim como o branco da areia é constraste invisível durante o dia. os oceanos do sul do hemisfério-mundo nasceram sob o signo de outras cores. aquarela de verdes misturados pelas ondas. se enxerga mais no barulho da arrebentação que na superfície das águas.

o mar como tema se desbota nas folhas do caderno. nos códigos das letras. não existem páginas aquáticas. não existem versos escritos n'água. não existe nada. apenas o cheiro de sal na brisa. já vento. violento.

os barcos cavalgam a linha do horizonte e se perdem por dentro das nuvens que tocam o teto do mar. fundo do abismo invertido de mais um afogado. mãos ao alto. sem saída. lágrimas por dentro da máscara do homem-rã que sempre chega atrasado.

peixes ao longe, voando como bailarinas. abrem-se as cortinas no cortante do arrasto. a rede descansando na areia é o fim da linha. restos de sargaço, sandálias. sentados, os pescadores contabilizam os estragos. e um cardume de crianças acena com os olhos suas vontades de mergulho.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

o horizonte móvel

"Nossas convicções mais arraigadas, mais indubitáveis são as mais suspeitosas. Elas constituem o nosso limite, nossos confins, nossa prisão. Pouca coisa é a vida se não bate pé um afã formidável de ampliar as suas fronteiras. Vive-se na proporção em que se anseia viver mais. Toda obstinação em nos mantermos dentro de nosso horizonte habitual significa fraqueza, decadência das energias vitais. O horizonte é uma linha biológica, um órgão vivo do nosso ser; enquanto gozamos de plenitude, o horizonte emigra, dilata-se, ondula elástico quase ao compasso da nossa respiração. Ao contrário, quando o horizonte se fixa, é que se anquilosou e que nós ingressamos na velhice."

José Ortega y Gasset, A Desumanização da arte.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

velho poema

aro bobô yí


quando Iansã
partiu
deixou
o mundo
todo molhado

saí de casa
e vi
nas águas sujas
das ruas
duas cobras gêmeas

nadando
na direção
do arco-íris


domingo, 6 de abril de 2008

buraco negro

as máquinas de fazer nada não estão quebradas.
Arnaldo Antunes


engrenagem que puxa o tempo. arranca as fibras das horas - momentos tornados farrapos - e mastiga tudo até que dentro de si haja nada. barulho de cacos de um relógio imaginário. espaço desfeito no anti-instante de mais uma revelação que não chega. as tomadas do universo alimentam o movimento morto. mecânico. retas invisíveis que se encontram no infinito. equações que comprovam paradoxos não nos levam a lugar algum. são passos no vazio. vácuo criativo embaralhando os números. tradução do silêncio em coisa artificial. ruído branco das palavras que se quebram em falta de sentido. não-galáxia onde se lêem todas as páginas do mundo impossível.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

arte e ciência

"a ciência se insemina subliminarmente.
a ciência é uma irmã caçula (talvez bastarda) da arte:
Camões pediu ajuda do engenho e da arte - não da ciência.
Salomão diz que 'ciência sem consciência não é senão a ruína da alma' - a arte não"

Cesar Lattes, físico

segunda-feira, 31 de março de 2008

Casa

chove. destelham a casa velha da esquina. a memória das paredes lavada pela água. sujeira que escorre para a rua sem passar pelo jardim. onde havia muro, cacos. onde havia porta, só o espaço. tapumes de uma construção futura. sem passado.

a casa habitou sonhos numa infância distante. já abrigou família de nome. já foi uma escola. de tão fechada que andava, ninguém percebeu que por dentro não morava mais gente. até chegarem escadas e marretas para expor o chão de ladrilhos ao céu. carregado. cinzento. não há mais teto que proteja seu brilho pacientemente encerado.

chove. destelham a casa velha da esquina. mais uma.

a casa continua habitando sonhos. ontem ela sobrevoava o bairro. flutuava serena, escolhia um dos arranha-céus mais altos e, de repente, sobre ele caía com a força dos anos. onde havia prédio, agora apenas a casa. olhando calma com seus olhos de janela os passantes que comentavam sem vontade como o passado vinha destruindo sem dó o futuro artificial que tentavam criar para aquela cidade. alguém dizia: mas isso não é só aqui, acontece no mundo todo! é o progresso! precisamos destruir para progredir!

acordei rindo da capacidade irônica daquela casa moribunda.

quinta-feira, 27 de março de 2008

acalanto

calor e silêncio. povoam o vazio meras memórias de ventania. tudo cala num instante que se estende até onde alcança a sede adiada em palavras não ditas. enquanto penso num eixo para tudo o que pretendo escrever, vai se esgarçando o tempo. revelando as falhas da dimensão presente. não consigo ver sentido no ar que pesa. não consigo ouvir calma na madrugada muda. o tecido do agora me aparece esticado no espaço. infinito. minha mão empunha a pena e quer rasgar o véu do falso sossego. mas o corpo se adianta e deita na rede daquele momento sereno. é a pele que vai tatuando as horas com uma canção sutil. uma canção que é apenas sopro. uma canção de olhos fechados...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Solar

enxergo chuva nas sombras que projeto pela rua. são rastros de desejos. desdesejos. março não existe sem a memória enxuta da água que cai. as sombras breves são relato de um escuro passado. nuvens que se projetam em nuvens. no entanto, o céu me desmente em azul de fogo. arquitetura da luz na superfície de uma nova percepção da manhã. já tarde. o tempo é ficção de relógios. e não existe nenhuma noção do que seja agora sem o ontem que carregamos envolto em esquecimento. ninguém arranca folhas de calendários. são os dias que nos arrancam da vontade de permanecer. são os dias que transformam em ar a dor das ilusões tornadas realidade. são os dias que tecem em pelos de leão as formas exatas da memória. são os dias os presentes.

terça-feira, 11 de março de 2008

A Lua

o escuro é líquido. eu poderia ver todas as cores do invisível se abrisse os olhos. em vez disso, estendo as mãos. enxergo formas submersas. seres que dormem num mar de sonho. irmãos da espera. de repente, sinto que me tocam o rosto. e são meus próprios dedos tateando. do lado errado do espelho. o espanto agita os braços, como se nadasse.

a noite é líquida. as cores dos seres que eu não vejo se misturam às ondas do mar de águas negras. o olho do céu se abre acima do mundo. compasso de espera. três sonhos me foram enviados. três sonhos que me tocaram a fronte sem que eu acordasse. movimento invisível escrevendo caminhos na superfície do nada. torpor.

a vida é líquida. o corpo vibra em desespero. tenta fluir. mas não pode respirar. não existe fundo na alma noturna. a pele molhada acorda apenas quando a lâmina mistura o dentro e o fora. neste ponto exato, começa a vida.


sexta-feira, 7 de março de 2008

quinta-feira, 6 de março de 2008

novidade

texto novo no site primeira fonte sobre o filme "não por acaso"

domingo, 2 de março de 2008

Vibrações

Quero ser tambor
(José Craveirinha, Moçambique 1922-2003)

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

sábado, 23 de fevereiro de 2008

óculos escuros

desculpe os olhos vermelhos. acordei antes de resolver meu sonho.

sim, ficou pela metade o gole de angústia. um meio-susto. quase pesadelo.
o sol veio rápido demais. balançava como uma lâmpada pendurada do lado de fora da janela.
no varal, negativos dos gestos de ontem expostos à luz do meio-dia. canção de ruídos esquisitos. melodia pelo avesso.
o verão persiste como tradução do corpo do mundo no suor humano. o calor faz com que o ar toque nas pessoas. as mãos do vento são quentes e úmidas. fazem brilhar a pele.

mais uma vez, a cidade amanhece como se nada tivesse acontecido.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Lido

quem me lê não entende. não escrevo ficção. realidade líquida, noves fora, texto fluido nascido do instante-agora em que tudo existe. fiel. tudo é filho do mesmo tempo e se vai na mesma velocidade com que o olho esquece o texto por que já passou. o já lido.

quem me lê não me entende. quero dizer o que digo. não troco nomes para preservar pessoas. identidades foram feitas para serem gastas no uso. e na sola dos meus papéis ficam as marcas do não escrito. até isso se registra por si mesmo. aquilo com o que não lido.

sou uma pessoa lida. por várias outras. alguns trazem o conhecimento de línguas segundas por julgarem compartilhada uma estrangeiridade. outros vêm com teorias sobre pontes e muros. ainda há os que preferem as lentes do olho nu. e todos estranham quando os sismógrafos nada acusam.

meu texto é claro para quem sabe escutar. de mãos vazias. sem vontade de compreender. não ofereço mapas além dos caminhos das palavras. todas as portas estão abertas. traço, linha a linha, o esboço de uma nova e inútil arquitetura. câmara de ecos num mundo de surdos-mudos.

a estrada silenciosa quase não mais se distingue da paisagem. e os livros continuam dormindo enquanto não aparece quem os abra.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Olhar/ver/enxergar

Sou cego também. Não porque veja menos. A miopia foi um presente que desde muito cedo fez meu olhar diferente. Gosto do que não vejo. As falhas do rosto, o cabelo mal penteado: tudo o que me escapa na hora do espelho me faz mais bonito. Minha imagem mais simples, sem tantos detalhes. Eu justo. Como tenho que ser.

Sou cego também. Não porque veja mais. Nem melhor que ninguém. Vejo como só eu sei ver. Só. E só eu percebo pormenores importantíssimos em tudo que atrai minha atenção. Coisas imprescindíveis ao meu ver. Questões de vida ou morte. Mas a vida e a morte são só minhas. Pessoais e intransferíveis.

Impossível falar do que vejo. Cada um vê como vê. Uns apenas olham, acreditando na falsa passividade desse gesto tão complexo.

Conheço gente que vê muito pouco, apesar de não precisar usar óculos. Eu sempre precisei, mas deixo eles em casa muitas vezes. Não me lembro de nada que perdi de ver por não estar de óculos. Conheço gente que deixa em casa a capacidade de enxergar sentido no mundo. E sai pela vida esbarrando nos próprios sentimentos. Ver é uma responsabilidade grande. E ninguém precisa de olhos para isso.