segunda-feira, 16 de novembro de 2009

oração ao tempo

.


tocando na cabeça o dia inteiro:

Grande Tempo
(Fatima Guedes)

Grande tempo, grande tempo
zum, zum, zum, zum de neon.
No princípio o verbo era
e a própria luz vem do som.

Oh, grande tempo,
eu tenho amor pela arte
se ela está dentro de mim,
me lança nos teus braços
e assim vou contigo
à toda parte.

Grande tempo, grande tempo
esses caminhos são meus,
todas as ciências juntas
beijam as saias de Deus.

Oh, grande tempo,
o que é meu está guardado,
não está grudado no céu
nem colado no futuro,
só sei que contigo está seguro.



ouça aqui

terça-feira, 27 de outubro de 2009

bebamos pela vida...


I


É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

(Hilda Hilst, Alcóolicas)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

jeunet et caro: le rouge et le vert


ainda impressionado depois de ter visto (com quase 15 anos de atraso) o belíssimo filme Ladrão de sonhos - nada a ver com o título original de A cidade das crianças perdidas (La cité des enfants perdus) - da dupla francesa Jeunet (Jean-Pierre Jeunet, d'O fabuloso destino de Amélie Poulain) e Caro.

é um filme de constrastes, não apenas entre o vermelho (das roupas e objetos) e o verde (das águas do mar que também fazem parte da cidade). o contraste das cores reflete outras relações bem mais complexas e conflituosas, como as tensões entre sonho e pesadelo, infância e maturidade, inocência e vício, esperança e desespero... mas, ao contrário do que possa parecer, esses extremos não se polarizam em oposições simplistas: eles se misturam e se confundem o tempo todo.

destaque para a personagem Miette (migalha, em francês) e para a diva absoluta Marianne Faithfull cantando nos créditos finais (para ouvir muitas vezes).

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Inspirações






Macanudo (tirinhas do argentino Liniers)

Clique nas imagens para ampliar...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

domingo de manhã

músicas que me fazem esquecer das coisas chatas e me sentir numa manhã ensolarada de domingo (com aquela sensação de "não preciso fazer absolutamente nada hoje")

aumentem o volume e bom domingo!

1 - cocteau twins
não consegui escolher só uma dessa banda. lá vão quatro.

bluebeard


iceblink luck


heaven or las vegas


tishbite


2 - zap mama - brrrlak
só vozes...



3 - sheila - les rois mages
todo o groove francês dos anos 70...



4 - joni mitchell - chelsea morning
"wake up, it's a chelsea morning!"



5 - rufus wainwright - cigarettes and chocolat milk
irônico e inteligente sem ser chato



6 - orquídeas do brasil - milágrimas
(três) orquídeas, alice e itamar: combinação perfeita

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Enquete aberta


Funciona assim: eu ofereço algumas questões para você refletir, e se você quiser tornar pública sua reflexão é só comentar este post, ok?

- Você costuma fazer rascunhos?
- Se sim, o que faz com eles depois? Guarda? Joga fora? Por quê?
- A tecla "delete" acabou com o rascunho?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Bienal do livro de PE



Na próxima sexta-feira, dia 09/10 às 19:30, estarei conversando com Artur Ataíde e Ronaldo Correia de Brito sobre Galiléia, último livro de Ronaldo (ganhador do prêmio São Paulo de Literatura).

A programação completa do dia 09/10 na Bienal você encontra aqui.

Mais informações sobre a Bienal do Livro de Pernambuco você encontra aqui.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Itamar, daqui pra frente

Fiz uma página sobre Itamar Assumpção onde pretendo ir soltando algumas informações que eu coletei durante a pesquisa de mestrado. Por enquanto só estão lá uma mini-biografia e uma discografia básica. Mas pretendo colocar em breve mais textos e uma lista das pessoas que já gravaram canções de Itamar (esta lista eu já montei, o problema é que ela está sempre crescendo...)

Clique aqui para visitar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Valeu, Itamar!


laroyê!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O que São Paulo me ensina...

Que a vida de artista é difícil, isso eu já sabia bem até demais.

Que os malabarismos que os artistas precisam fazer pra sobreviver são muitas vezes vexatórios, isso eu também já sabia.

Que os sistemas de apoio (financeiro) aos artistas são uma novela tragicômica, isso todo mundo sabe.

Que todos esses temas dariam uma bela canção, isso eu podia imaginar...

Mas aqui em Sampa, aprendi que a tal canção já existe!

Ela se chama "O retrato do artista quando pede" e você pode ouvir aqui ou aqui. Mais informações sobre os compositores aqui.

PS. Artistas visitantes deste blog, vamos começar a compor as versões regionais desta canção e, pelamordedeus, começar a pensar em outras saídas para viver de arte no Brasil (já passou da hora!!!)

Evento em Recife


Vou apresentar uma comunicação intitulada "O corpo na performance da canção: dimensões visuais da palavra cantada".

Apareçam!

sábado, 12 de setembro de 2009

horizonte

.


reta
incerta

costura
o longe

divide
a vista

em
além-
olho

meta-
ponte

fonte

falso
corte

corda

onde
só a
cena

soa.

domingo, 23 de agosto de 2009

pó ao pó

.


(que)
a
terra
traga
todo
tipo
de
tudo

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

horizonte vertical


sábado, 8 de agosto de 2009

móbile

.

do
signo

a
senha

ao
sentido

som

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

salve o silêncio

...

(só) o silêncio salva



será?

...



[gerador virtual de ruídos (branco, rosa e vermelho) aqui]

domingo, 2 de agosto de 2009

cor

Gerhard Richter 4096 cores (esmalte sobre tela, 1974)


lendo o fantástico livro Chromophobia, do artista inglês David Batchelor, encontro uma crítica concisa e bem formulada à moda interdisciplinar tão corrente no meio acadêmico, ou melhor, no discurso acadêmico...

reproduzo aqui um trechinho, esperando que sirva para aguçar a curiosidade de futuros leitores.

[a tradução é minha, mas sei que existe uma edição brasileira do livro]

"Esperava escrever um livro sobre arte, ao menos porque grande parte das coisas que já escrevi foi sobre arte, e alguém poderia pensar que há muito a dizer sobre arte em um livro sobre cor. Não foi o que acabou acontecendo. Mencionei pelo menos tanta literatura, filosofia e ciência quanto teoria da arte, e disse muito mais sobre filmes, arquitetura e publicidade que sobre pintura ou escultura. Justo: cor é interdisciplinar. Mas não me sinto confortável casualmente deixando passar alguma coisa como 'interdisciplinar'. Quero preservar a estranheza da cor; sua outridade é o que conta, não a comodificação desta outridade. O interdisciplinar é quase sempre o antidisciplinar tornado seguro. Cor é antidisciplinar"

terça-feira, 28 de julho de 2009

o poema em trânsito

nas salas de espera dos aeroportos, estações, terminais e gares da vida sempre me lembro deste poema de alice ruiz:



pessoas
com suas malas,
mochilas e valises
chegam e se vão
se encontram, se despedem
e se despem dos seus pertences
como se pudessem chegar
a algum lugar
onde elas mesmas
não estivessem



(do disco Paralelas, de Alice Ruiz e Alzira Espíndola)

sábado, 18 de julho de 2009

papillon français

terça-feira, 7 de julho de 2009

Décio Pignatari


"A poesia parece estar mais do lado da música e das artes plásticas e visuais do que da literatura [...] De fato, a poesia é um corpo estranho nas artes da palavra. É a menos consumida de todas as artes, embora pareça ser a mais praticada (muitas vezes às escondidas)"

"Um poema transmite a qualidade de um sentimento. Mesmo quando parece estar veiculando idéias, ele está é transmitindo a qualidade do sentimento dessa idéia. Uma idéia para ser sentida e não apenas entendida, explicada, descascada. A maioria das pessoas lê poesia como se fosse prosa. A maioria quer 'conteúdos' - mas não percebe formas. Em arte, forma e conteúdo não podem ser separados. Perguntava o poeta Yeats: "Você pode separar o dançarino da dança?" Quem se recusa a perceber formas, não pode ser artista. Nem fazer arte" 

In. O que é comunicação poética. 8 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2005.