domingo, 7 de dezembro de 2008

Objetos

Chão


A cada passo, os pés se cobrem de infinitas possibilidades de tropeços que não chegam a tocá-los, mas formam em volta deles uma espécie de parede transparente que acaba por fazer com que as pernas se equilibrem melhor. Cada passo é ornamentado por infinitas possibilidades de quedas. O plano do solo é imaginário, já que se caminha sobre um abismo sem fundo. Um abismo vastíssimo. Pleno de vazio. Não há saída. Não há escapatória. Por esta razão, caminhamos com passos mais seguros. A infinita queda, que efetivamente acontece a cada passo, não é sentida pelos que caminham, pois o vazio é total. Um penhasco precisaria de limites que este vazio não pode oferecer. Em última análise, pouco importa a direção para onde andamos, ou mesmo se estamos ou não na parte superior do solo. O plano do chão é infinito. E a queda, plena, sem as intermitências aparentes da vida.


Cama


É um corpo belo entre os lençóis. Enrodilhado como um verme que se assusta à proximidade do predador. Observando de outra maneira, diria que a pele deste corpo é jovem e viçosa. Deixa perceber as formas de músculos rijos e fortes. Mas tudo isso estragaria a comparação com o verme, branco e pulsátil. E aquele corpo não é nada mais que isso naquele momento: verme assustado e frágil. O predador não seria outro que um passarinho. Observando de outra maneira, diria que sua plumagem tem belas cores e uma textura que evoca inevitáveis vôos pelos céus do mundo. Mas tudo isso se apaga por obra das terríveis garras que ele agora aponta com um olhar afiado ao seu amado verme. O objeto de seu apetite sem escrúpulos. Ave de rapina disfarçada de inofensiva criatura aos olhos nus de qualquer observador incauto. Do passarinho não se pode dizer que tenha o viço que a simples palavra - pele - faz vibrar em que a pronuncia. É bicho sem língua, desprovido das lúbricas sensações que verme e corpo liberam no ar. Secreções venenosas que catalisam tempo. Apenas uma fração de segundo sintetiza eras inteiras: agora um se agita dentro do outro, que será para sempre refém desta refeição.


Cigarro


De repente, sou capaz de fumar por horas a fio. Acompanhando com gosto as volutas que a fumaça desenha dentro dos meus pulmões, a caminho das vias respiratórias superiores. A destreza de um rio voluntário que caminha não com membros de água, mas com a fugacidade de um olhar diáfano. Mesmo sem elaborar em palavras, é isso que sinto quando puxo a fumaça para dentro de mim. O ar cinzento passa pelo interior gelatinoso da garganta quase sem atrito. Apenas o suficiente para que eu sinta quando já é hora de iniciar o movimento contrário. Penso que se estivesse dentro do mar numa noite escura e quente sentiria algo muito parecido, apesar das advertências de que a água salgada esconde perigos invisíveis (dos quais sempre duvidarei). Sinto o arrastar calmo das ondas em seu movimento lânguido. Sinto uma serenidade não compatível com qualquer tipo de movimento ou adjetivos. Entretanto, lá estão as palavras a se moverem. Frêmito, vento, espirais... Intermináveis instantes se passam antes que eu possa me dar conta de que estou preso numa ilusão: nos sonhos não há olfato ou paladar.


Sandálias


Não escuto o mar, mas posso vê-lo do alto da janela de um domingo transparente que retine de claridade. A calma cotidiana chega trazendo uma saudade que há muito não lembrava que existia. O chão frio de ladrilhos já nem se lembra da madrugada silenciosa que passou ignorando a própria insônia. Dois abraços acordam na mesma hora e se olham com o espanto habitual das horas felizes. Todo o mundo de preocupações e compromissos; toda a vida de motivos insuficientes, mas peremptórios; tudo que se impõe no caminho da livre vontade; mais ainda, tudo aquilo que esmaga a dança infantil dos desejos mais profundos; e ainda além, toda razão que aniquila e paralisa. Absolutamente tudo se resumia a levantar da cama, vestir uma camiseta e sair pela manhã com a tarefa despreocupada de comprar pão para o desjejum.

Um comentário:

nandodijesus disse...

Meu caro, você começou muuuito bem minha semana! Sem zoeira, foi a coisa mais linda que eu já vi sair de ti. Estou espantado. Comecei a ler nem aí, foi crescendo, e quando terminei o coração acelerou tanto que precisei reler, imprimir, perceber que há uma sequência narrativa completa, com um vigor literário muito original. Sei que elogio demais estraga, mas é que tô respondendo no auge. Super parabéns e por favor, faça mais disso!!! Ah, essa modernidade fragmentária (fiquei pensando num romance inteiro assim...) Acho que vou demorar nisso... Muito obrigado.