domingo, 20 de abril de 2008

São João

o menino dorme
na rede
enquanto a tarde
se arrasta
em mormaço
e sono

seu braço
pendurado
balança sem vontade
e arrasta um bocejo
no chão.

o menino dorme
na rede
solto num instante
que se espraia

sem vento
sem motivo
sem ninguém
que o observe:


esquecido
da vida,
ele se deixa
sonhar

quarta-feira, 16 de abril de 2008

escultura de livro

Papel é matéria prima: para amantes do origami, para desenhistas e desenhadores, para correspondentes que insistem no sistema postal, para fazedores de jornal, para todo mundo que escreve (direto com caneta e lápis ou através da impressora), para quem acha que panfletos funcionam como propaganda... Papel é também matéria-prima de livro.

Livro é matéria-prima: para livreiros e donos de sebos, para professores/alunos/curiosos, para críticos literários, para quem compra por metro romances franceses encadernados em couro para decorar a sala. Livro é matéria-prima para quem não troca a leitura com os cinco sentidos (aquela leitura-abraço) pela tela fria do computador - que facilita muita coisa, mas não dá conta de tudo...

Mas livro de papel também é matéria-prima de escultura. Deixo aqui as palavras e uma imagem da artista inglesa Su Blackwell.


"Paper has been used for communication since its invention; either between humans or in an attempt to communicate with the spirit world. I employ this delicate, accessible medium and use irreversible, destructive processes to reflect on the precariousness of the world we inhabit and the fragility of our life, dreams and ambitions. It is the delicacy, the slight feeling of claustrophobia, as if these characters, the landscape have been trapped inside the book all this time and are now suddenly released. A number of the compositions have an urgency about them, the choices made for the cut-out people from the illustrations seem to lean towards people on their way somewhere, about to discover something, or perhaps escaping from something. And the landscapes speak of a bleak mystery, a rising, an awareness of the air"

Su Blackwell. Mais informações (e imagens) aqui.

terça-feira, 15 de abril de 2008

o sono de Deus

V

Para um Deus, que singular prazer.
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o Senhor de um breve Nada: o homem:
Equação sinistra
Tentando parecença contigo, Executor.

O Senhor do meu canto, dizem? Sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verso minha vida minha cabeça.

Dorme, inventado imprudente menino.
Dorme. Para que o poema aconteça.

(Hilda Hilst: Poemas malditos, gozosos e devotos)

sábado, 12 de abril de 2008

maré areia, mareia

o azul do mar só existe à noite. é ficção de lua. assim como o branco da areia é constraste invisível durante o dia. os oceanos do sul do hemisfério-mundo nasceram sob o signo de outras cores. aquarela de verdes misturados pelas ondas. se enxerga mais no barulho da arrebentação que na superfície das águas.

o mar como tema se desbota nas folhas do caderno. nos códigos das letras. não existem páginas aquáticas. não existem versos escritos n'água. não existe nada. apenas o cheiro de sal na brisa. já vento. violento.

os barcos cavalgam a linha do horizonte e se perdem por dentro das nuvens que tocam o teto do mar. fundo do abismo invertido de mais um afogado. mãos ao alto. sem saída. lágrimas por dentro da máscara do homem-rã que sempre chega atrasado.

peixes ao longe, voando como bailarinas. abrem-se as cortinas no cortante do arrasto. a rede descansando na areia é o fim da linha. restos de sargaço, sandálias. sentados, os pescadores contabilizam os estragos. e um cardume de crianças acena com os olhos suas vontades de mergulho.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

o horizonte móvel

"Nossas convicções mais arraigadas, mais indubitáveis são as mais suspeitosas. Elas constituem o nosso limite, nossos confins, nossa prisão. Pouca coisa é a vida se não bate pé um afã formidável de ampliar as suas fronteiras. Vive-se na proporção em que se anseia viver mais. Toda obstinação em nos mantermos dentro de nosso horizonte habitual significa fraqueza, decadência das energias vitais. O horizonte é uma linha biológica, um órgão vivo do nosso ser; enquanto gozamos de plenitude, o horizonte emigra, dilata-se, ondula elástico quase ao compasso da nossa respiração. Ao contrário, quando o horizonte se fixa, é que se anquilosou e que nós ingressamos na velhice."

José Ortega y Gasset, A Desumanização da arte.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

velho poema

aro bobô yí


quando Iansã
partiu
deixou
o mundo
todo molhado

saí de casa
e vi
nas águas sujas
das ruas
duas cobras gêmeas

nadando
na direção
do arco-íris


domingo, 6 de abril de 2008

buraco negro

as máquinas de fazer nada não estão quebradas.
Arnaldo Antunes


engrenagem que puxa o tempo. arranca as fibras das horas - momentos tornados farrapos - e mastiga tudo até que dentro de si haja nada. barulho de cacos de um relógio imaginário. espaço desfeito no anti-instante de mais uma revelação que não chega. as tomadas do universo alimentam o movimento morto. mecânico. retas invisíveis que se encontram no infinito. equações que comprovam paradoxos não nos levam a lugar algum. são passos no vazio. vácuo criativo embaralhando os números. tradução do silêncio em coisa artificial. ruído branco das palavras que se quebram em falta de sentido. não-galáxia onde se lêem todas as páginas do mundo impossível.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

arte e ciência

"a ciência se insemina subliminarmente.
a ciência é uma irmã caçula (talvez bastarda) da arte:
Camões pediu ajuda do engenho e da arte - não da ciência.
Salomão diz que 'ciência sem consciência não é senão a ruína da alma' - a arte não"

Cesar Lattes, físico

segunda-feira, 31 de março de 2008

Casa

chove. destelham a casa velha da esquina. a memória das paredes lavada pela água. sujeira que escorre para a rua sem passar pelo jardim. onde havia muro, cacos. onde havia porta, só o espaço. tapumes de uma construção futura. sem passado.

a casa habitou sonhos numa infância distante. já abrigou família de nome. já foi uma escola. de tão fechada que andava, ninguém percebeu que por dentro não morava mais gente. até chegarem escadas e marretas para expor o chão de ladrilhos ao céu. carregado. cinzento. não há mais teto que proteja seu brilho pacientemente encerado.

chove. destelham a casa velha da esquina. mais uma.

a casa continua habitando sonhos. ontem ela sobrevoava o bairro. flutuava serena, escolhia um dos arranha-céus mais altos e, de repente, sobre ele caía com a força dos anos. onde havia prédio, agora apenas a casa. olhando calma com seus olhos de janela os passantes que comentavam sem vontade como o passado vinha destruindo sem dó o futuro artificial que tentavam criar para aquela cidade. alguém dizia: mas isso não é só aqui, acontece no mundo todo! é o progresso! precisamos destruir para progredir!

acordei rindo da capacidade irônica daquela casa moribunda.

quinta-feira, 27 de março de 2008

acalanto

calor e silêncio. povoam o vazio meras memórias de ventania. tudo cala num instante que se estende até onde alcança a sede adiada em palavras não ditas. enquanto penso num eixo para tudo o que pretendo escrever, vai se esgarçando o tempo. revelando as falhas da dimensão presente. não consigo ver sentido no ar que pesa. não consigo ouvir calma na madrugada muda. o tecido do agora me aparece esticado no espaço. infinito. minha mão empunha a pena e quer rasgar o véu do falso sossego. mas o corpo se adianta e deita na rede daquele momento sereno. é a pele que vai tatuando as horas com uma canção sutil. uma canção que é apenas sopro. uma canção de olhos fechados...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Solar

enxergo chuva nas sombras que projeto pela rua. são rastros de desejos. desdesejos. março não existe sem a memória enxuta da água que cai. as sombras breves são relato de um escuro passado. nuvens que se projetam em nuvens. no entanto, o céu me desmente em azul de fogo. arquitetura da luz na superfície de uma nova percepção da manhã. já tarde. o tempo é ficção de relógios. e não existe nenhuma noção do que seja agora sem o ontem que carregamos envolto em esquecimento. ninguém arranca folhas de calendários. são os dias que nos arrancam da vontade de permanecer. são os dias que transformam em ar a dor das ilusões tornadas realidade. são os dias que tecem em pelos de leão as formas exatas da memória. são os dias os presentes.

terça-feira, 11 de março de 2008

A Lua

o escuro é líquido. eu poderia ver todas as cores do invisível se abrisse os olhos. em vez disso, estendo as mãos. enxergo formas submersas. seres que dormem num mar de sonho. irmãos da espera. de repente, sinto que me tocam o rosto. e são meus próprios dedos tateando. do lado errado do espelho. o espanto agita os braços, como se nadasse.

a noite é líquida. as cores dos seres que eu não vejo se misturam às ondas do mar de águas negras. o olho do céu se abre acima do mundo. compasso de espera. três sonhos me foram enviados. três sonhos que me tocaram a fronte sem que eu acordasse. movimento invisível escrevendo caminhos na superfície do nada. torpor.

a vida é líquida. o corpo vibra em desespero. tenta fluir. mas não pode respirar. não existe fundo na alma noturna. a pele molhada acorda apenas quando a lâmina mistura o dentro e o fora. neste ponto exato, começa a vida.


sexta-feira, 7 de março de 2008

quinta-feira, 6 de março de 2008

novidade

texto novo no site primeira fonte sobre o filme "não por acaso"

domingo, 2 de março de 2008

Vibrações

Quero ser tambor
(José Craveirinha, Moçambique 1922-2003)

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

sábado, 23 de fevereiro de 2008

óculos escuros

desculpe os olhos vermelhos. acordei antes de resolver meu sonho.

sim, ficou pela metade o gole de angústia. um meio-susto. quase pesadelo.
o sol veio rápido demais. balançava como uma lâmpada pendurada do lado de fora da janela.
no varal, negativos dos gestos de ontem expostos à luz do meio-dia. canção de ruídos esquisitos. melodia pelo avesso.
o verão persiste como tradução do corpo do mundo no suor humano. o calor faz com que o ar toque nas pessoas. as mãos do vento são quentes e úmidas. fazem brilhar a pele.

mais uma vez, a cidade amanhece como se nada tivesse acontecido.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Lido

quem me lê não entende. não escrevo ficção. realidade líquida, noves fora, texto fluido nascido do instante-agora em que tudo existe. fiel. tudo é filho do mesmo tempo e se vai na mesma velocidade com que o olho esquece o texto por que já passou. o já lido.

quem me lê não me entende. quero dizer o que digo. não troco nomes para preservar pessoas. identidades foram feitas para serem gastas no uso. e na sola dos meus papéis ficam as marcas do não escrito. até isso se registra por si mesmo. aquilo com o que não lido.

sou uma pessoa lida. por várias outras. alguns trazem o conhecimento de línguas segundas por julgarem compartilhada uma estrangeiridade. outros vêm com teorias sobre pontes e muros. ainda há os que preferem as lentes do olho nu. e todos estranham quando os sismógrafos nada acusam.

meu texto é claro para quem sabe escutar. de mãos vazias. sem vontade de compreender. não ofereço mapas além dos caminhos das palavras. todas as portas estão abertas. traço, linha a linha, o esboço de uma nova e inútil arquitetura. câmara de ecos num mundo de surdos-mudos.

a estrada silenciosa quase não mais se distingue da paisagem. e os livros continuam dormindo enquanto não aparece quem os abra.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Olhar/ver/enxergar

Sou cego também. Não porque veja menos. A miopia foi um presente que desde muito cedo fez meu olhar diferente. Gosto do que não vejo. As falhas do rosto, o cabelo mal penteado: tudo o que me escapa na hora do espelho me faz mais bonito. Minha imagem mais simples, sem tantos detalhes. Eu justo. Como tenho que ser.

Sou cego também. Não porque veja mais. Nem melhor que ninguém. Vejo como só eu sei ver. Só. E só eu percebo pormenores importantíssimos em tudo que atrai minha atenção. Coisas imprescindíveis ao meu ver. Questões de vida ou morte. Mas a vida e a morte são só minhas. Pessoais e intransferíveis.

Impossível falar do que vejo. Cada um vê como vê. Uns apenas olham, acreditando na falsa passividade desse gesto tão complexo.

Conheço gente que vê muito pouco, apesar de não precisar usar óculos. Eu sempre precisei, mas deixo eles em casa muitas vezes. Não me lembro de nada que perdi de ver por não estar de óculos. Conheço gente que deixa em casa a capacidade de enxergar sentido no mundo. E sai pela vida esbarrando nos próprios sentimentos. Ver é uma responsabilidade grande. E ninguém precisa de olhos para isso.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Reza em forma de música

Antífona
(Zé Modesto)

Nossa senhora mãe preta do Paraíba
Dá tua benção pra gente ir cantando em frente
E pela frente põe gente em nosso caminho
Pra nós cantar e ter sempre alguém ouvindo

Nossa senhora vigia
Esparrama o teu amor
Pra que na vida a poesia
Nos seja causa maior
Não seja a raspa do tempo
Que ele côa ligeirinho
Seja a poesia o alimento
A sustança no caminho

Cuida que haja o afago
E todo amor que ele tem
Que os corações que andam vagos
Encontrem logo seu bem
Nessa vida sem carinho
O nosso destino é vão
Quem é que na vida sozinho
Tem feliz seu coração

Sinhá preta seja abrigo
Nas horas de precisão
Que a gente saia do umbigo
E viva mais comunhão
Batendo menos cabeças
Fica leve a nossa cruz
Tua benção sinhá nas encrenca
Tua glória nos dias de luz


Mais sobre Zé Modesto aqui.
E aqui você ouve a música.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

luto por nascer

quando acaba o idílio, só nos resta recorrer à maturidade.

acendeu-se a luz. acabou-se a música.

não existem mapas para orientar os náufragos do sentido. náugrafos da palavra velha, puída pelo uso. a frase desbotada. mantra que já não funciona. esgotou-se na repetição.

sempre que a borboleta bate asas, cai morta uma tentativa desajeitada de alegria. o ser humano tem dificuldade em resistir à realidade. quando cai a máscara do sonho, parece mais fácil criar fantasmas que encarar o espelho.

como nos amedronta o silêncio. a ponto de nos provocar o grito que não deixa ouvir as ondas quebrando mansas na praia deserta. construindo palavras, sílaba por sílaba:

dentro de você, o ôco - vazio
fora de você, o eco - solidão

verdades que não queremos ouvir. verdades que alimentamos e deixamos crescer. como se fosse uma lei sem escapatória possível.

o mundo muda todo dia para quem não tem medo de juntar passado e futuro no momento-agora. fora disso, nada existe. só promessa e lembrança.

enquanto eu mantiver o hábito de escrever cartas para mim, saberei que alguém aqui dentro ainda existe enquanto projeto: motivo de impulso e busca.

04/02/08