quarta-feira, 29 de abril de 2009

Canção portuguesa contemporânea


Deolinda é um grupo português formado por jovens músicos. Suas canções são simples e eficientes. Palavra e música, voz e violões... Pronto. Assim como o sotaque da língua portuguesa falada pelos gajos do lado de lá do atlântico, também é possível ouvir os ecos da tradição musical daquelas terras. Fado sim, misturado com uma sonoridade pop e temas do cotidiano. Até o Brasil cabe na música deles (basta ouvir a canção "Garçonete de casa de fado" para entender). Sem mais, despeço-me. Mas antes...

Cá estão os links do site oficial e do myspace da banda.

Cá está a letra da excelente "Canção ao lado"

Desculpem, doutos homens, estetas,
Espíritos poetas, almas delicadas,
A falsidade do meu gênio e das minhas palavras.

Que é a erudição que eu canto,
Que é da vida, o espanto, que é do belo, a graça,
Mas eu só ambiciono a arte de plantar batatas.

Desculpem lá qualquer coisinha
Mas não está cá quem canta o fado.
Se era p'ra ouvir a Deolinda,
Entraram no sítio errado.
Nós estamos numa casa ali ao lado.
Andamos todos uma casa ao nosso lado.

Bem sei que há trolhas escritores,
Letrados estucadores e serventes poetas;
E poetas que são verdadeiros pedreiros das letras.
E canta em arte genuína, o pescador humilde,
A varina modesta;
E tanta vedeta devia dedicar-se à pesca.

Desculpem lá qualquer coisinha
Mas não está cá quem canta o fado.
Se era p'ra ouvir a Deolinda,
Entraram no sítio errado.
Nós estamos numa casa ali ao lado.
Andamos todos uma casa ao nosso lado.

Por não fazer o que mais gosto
Eu canto com desgosto, o facto de aqui estar;
E algures sei que alguém mal disposto
Ocupa o meu lugar.

Ninguém está bem com o que tem...
E há sempre um que vem e que nos vai valer;
Porém quase sempre esse alguém não é quem deve ser.

Desculpem lá qualquer coisinha
Mas não está cá quem canta o fado.
Se era p'ra ouvir a Deolinda,
Entraram no sítio errado.
Nós estamos numa casa ali ao lado.
Andamos todos uma casa ao nosso lado.

E é a mudar que vos proponho!
Não é um passo medonho em negras utopias;
É tão simples como mudar de posto na telefonia.
Proponho que troquem convosco e acertem com a vida!


segunda-feira, 27 de abril de 2009

Corpo funcional

I

o

corpo

como

parte:


cada

membro

denota

o todo;


todo

ângulo

revela

o resto.


o

corpo

como

forma:


pureza

difícil


na

incoerência

do vivo.


o

corpo

como

luta:


apenas

dura

enquanto

sangue.



[a primeira série, chamada "das formas masculinas", tem nove poemas (por enquanto). este é o primeiro]

terça-feira, 21 de abril de 2009

As vozes de Vila-Matas

Ando às voltas com a literatura do catalão Enrique Vila-Matas, autor das melhores páginas que li nos últimos tempos. Resisti à tentação de traduzir alguma coisa antes de terminar o livro que estou lendo, mas o trecho a seguir (por sua ligação com toda a minha pesquisa sobre a voz e a palavra cantada) me fez interromper a leitura por meia-hora. Eis a tradução:


3

Tinha ouvido falar das vozes de Marrakech, mas não sabia se estas tinham realmente algo de peculiar. Talvez sejam diferentes do resto das vozes do mundo, eu me disse ao instalar-me na varanda do café de onde se divisava a praça de Xemaá-el-Fná. Deu-me de pensar que nunca se fala da cor das vozes e que talvez em Marrakech isso fosse possível. Voz terra de Siena de Petrarca, voz cor de traje de faquir hindu. Talvez em Marrakech, eu me disse, as vozes tenham cor. Não tardei em comprovar que andava certo. Aproximou-se um garçom marroquino e, ao perguntar-me o que desejava tomar, pareceu-me que sua voz, que evocava o fundo sonoro dos muezins quando dos minaretes convocam o povo à oração, era uma voz cor cal de torre de mesquita. E pedi religiosamente um chá.

Apareceu um orate de pele escura, raça negra, branca cafetã impoluta. Toda minha atenção centrou-se nele e no seu ingrávido edifício sonoro. Nunca tinha visto trejeitos tão airados e tão sobriamente compassados ao ritmo de umas vibrações acústicas, inaudíveis para mim, que se apoderavam com grande energia do ambiente e que pareciam reproduzir, no ar entrecortado pelos gestos, uma história.

Imaginei que o orate só possuía uma história e que esta falava de um tronco triste alçado como mastro. Falava dele mesmo e dos dias em que lhe dominaram as ânsias de aventura. O orate negro tinha viajado a terras longínquas e, em seu périplo, foi apropriando-se de fragmentos de histórias que dissimuladamente havia escutado. Com todos estes retalhos foi compondo o romance airado e musical de sua vida: uma história que, com ritmo sincopado e artimanhas de mímico, vendia diariamente como um sonho a um público sempre devotado e fiel, ali em Xemaá-el-Fná.

Era a história ou o resumo fictício do que tinha sido sua vida. Uma vida sintetizada em quatro gestos que clamavam ao céu e em quatro vibrações acústicas e rítmicas de voz cor fraque branco de músico de jazz. Voz de orate negro. Na verdade aquela era toda uma voz de cor.


Enrique Vila-Matas. "La fuga en camisa". In. Recuerdos inventados. Barcelona: Anagrama, 1994 [originalmente publicado em Una casa para siempre] Tradução minha. 

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Biodesagradável

Enquanto isso, em um templo de consumo qualquer...

"Ao usar este secador de mãos você está contribuindo para a saúde do planeta, pois menos árvores estão sendo utilizadas na produção de papel-toalha"

As plaquinhas (uma para cada secador) são feitas do mais puro plástico: 100% não-biodegradável.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Passagem

Peru, Junho/2008


quanto céu
cabe nas
mãos
da pedra

quando traz
em si
a mínima
porção
de infinito

necessária
ao mergulho

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Música rara brasileira

Uma canção por dia. Dessas que você não ouve por aí...

Visitem:

http://vitrolabrasileira.tumblr.com/

Boa escuta.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Bernard Noël

Segue um trecho das traducões que andei fazendo deste poeta francês. O texto original, intitulado Les états du corps (Os estados do corpo), encontra-se no livro Extraits du corps (Extratos do corpo) e é composto de onze partes numeradas.



7

No sétimo momento, o tempo recomeça. As execuções também e, por via de conseqüência - ou mesmo de causalidade - as guerras, as revoluções. O corpo recupera assim o crédito, pois torna bom o matar. Distinguimos nele a cabeça, a parte de baixo e o meio. Não estamos certos de que morrer e matar sejam o mesmo embora seja o mesmo seu resultado. Matar é um buraco, afirma uma escola; morrer é uma evasão, afirma a outra. Nos evadimos por um buraco, assegura a mais nova.

domingo, 29 de março de 2009

Observação da lua

(link da foto aqui)


I - Minguante


O escuro
nítido

como as bordas do arco
invertido

equilibra o céu
noturno.

A lua exala
uma ausência
sem espera.

Vazio
intraduzível

entre os escombros
serenos
da madrugada.

Não há
duração:

apenas as
formas mais puras

do silêncio.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Lá vem a cidade

(Lenine e Bráulio Tavares)

Eu vim plantar meu castelo
Naquela serra de lá,
Onde daqui a cem anos
Vai ser uma beira-mar...

Vi a cidade passando,
Rugindo, através de mim...
Cada vida
Era uma batida
Dum imenso tamborim.
Eu era o lugar, ela era a viagem
Cada um era real, cada outro era miragem.

Eu era transparente, era gigante
Eu era a cruza entre o sempre e o instante.
Letras misturadas com metal
E a cidade crescia como um animal,
Em estruturas postiças,
Sobre areias movediças,
Sobre ossadas e carniças,
Sobre o pântano que cobre o sambaqui...
Sobre o país ancestral
Sobre a folha do jornal
Sobre a cama de casal onde eu venci.

Eu vim plantar meu castelo
Naquela serra de lá,
Onde daqui a cem anos
Vai ser uma beira-mar...

A cidade
Passou me lavrando todo...
A cidade
Chegou me passou no rodo...
Passou como um caminhão
Passa através de um segundo
Quando desce a ladeira na banguela...
Veio com luzes e sons.
Com sonhos maus, sonhos bons.
Falava como um camões,
Gemia feito pantera.
Ela era...
Bela... fera.

Desta cidade um dia só restará
O vento que levou meu verso embora...
Mas onde ele estiver, ela estará:
Um será o mundo de dentro,
Será o outro o mundo de fora.

Vi a cidade fervendo
Na emulsão da retina.
Crepitar de vida ardendo,
Mariposa e lamparina.
A cidade ensurdecia,
Rugia como um incêndio,
Era veneno e vacina...

Eu vim plantar meu castelo
Naquela serra de lá,
Onde daqui a cem anos
Vai ser uma beira-mar...

Eu pairava no ar, e olhava a cidade
Passando veloz lá embaixo de mim.
Eram dez milhões de mentes,
Dez milhões de inconscientes,
Se misturam... viram entes...
Os quais conduzem as gentes
Como se fossem correntes
Dum rio que não tem fim.

Esse ruído
São os séculos pingando...
E as cidades crescendo e se cruzando
Como círculos na água da lagoa.
E eu vi nuvens de poeira
E vi uma tribo inteira
Fugindo em toda carreira
Pisando em roça e fogueira
Ganhando uma ribanceira...
E a cidade vinha vindo,
A cidade vinha andando,
A cidade intumescendo:
Crescendo... se aproximando.

Eu vim plantar meu castelo
Naquela serra de lá,
Onde daqui a cem anos
Vai ser uma beira-mar...

sábado, 7 de março de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen


Este poema já me deu muito o que pensar desde que o li pela primeira vez no início do ano...



As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra


"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."


Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito


Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Blossom Dearie


A cantora e pianista norte-americana Blossom Dearie faleceu no dia 07/02, aos 82 anos.

Ninguém dá adeus a uma artista como ela, que permanece viva em centenas de gravações e na memória dos ouvintes e fãs mundo afora.

Ouçamos!



terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Recomendação

Leitores? Existe algum por aí?

Enfim, a quem interessar possa: este humilde blog foi agraciado com o selo de recomendação reproduzido abaixo:
 

Sendo bem sincero, o que me interessa nem é o selo, mas sim a recomendação, que partiu de uma grande amiga. Vilma, além de ter ótimo papo, ser gente finíssima e grande companheira de aventuras (reais e virtuais), possui um talento incomum para a escrita. Todos os assuntos abordados por ela ganham uma humanidade que é cada vez mais rara hoje em dia. 

Em homenagem à Vilma, vou continuar a corrente e indicar outros blogs que visito sempre.

Enfim, meu blog - Não sou de fazer média com ninguém. Este blog estaria no topo da lista de qualquer jeito: sempre corro feliz pra ler quando é atualizado.

Rua do padre inglês - Do excelente poeta Everardo Norões.

REVIDE - Eduardo Araújo: acadêmico, cineasta e fazedor de boas idéias.

Maio, 26 - Sou leitor fiel da Sweet.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ruído Branco

Caminhar

até o fim da terra,

onde a linha d’água

extrapola a medida do infinito

em onda e céu.


Caminhar

abrindo caminhos no vento

por entre o universo mineralizado

da vida sem movimento.


Caminhar

em busca da experiência do limite.

Lá, onde as imagens pertencem apenas à mente

onde não há outro ser com quem se possa compartilhar belezas.


Além de onde tudo acaba

e não existe mais voz


nem som

nem silêncio.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Diáfano


A paixão caminha pelo ar. Evapora, mas continua visível. É o vermelho de uma taça de vinho. O reflexo da luz no corpo da pessoa amada. Ou as saliências por baixo da roupa de uma pessoa que passa. Pode ser o movimento do seu próprio corpo, quando ninguém está prestando atenção. As voltas da água que desce pela sua garganta em resposta à sede. É o olhar e o que ele desperta. Por dentro. 

Também pode ser memória. Uma voz que já foi familiar. A geografia íntima que as mãos conheceram de cor. Nomes. Cores. Timbres. Cheiros. Os primeiros acordes de uma canção que hoje soa no passado. Cartas escritas com capricho e cuidado, para sempre fechadas em seus envelopes velhos. Alguma coisa que já brilhou. Um dia.

A paixão mora no instante volátil em que o sentimento pode ser pesado e medido. Algumas vezes cabe na palma da mão. Outras não cabe em si, e quer rasgar. Sempre lateja. Arde. Dói. Sufoca. Grita com vontade de explodir o tempo. A paixão não tem espaço. Ocupa uma dimensão maior que o ser. Ela nega o ser, em nome de nada. É gratuita. E vasta. E vã.

Talvez seja possível entender seus caminhos. Certamente se pode provar seu sabor fugaz. Mas a paixão não mora na palavra que a define. Nem em palavra nenhuma que a provoque. Não existe fala ou canto que possa fixá-la. Ao longo de toda a história da humanidade. Através de pinturas, danças e filmes. Dirigindo olhares, discursos e ações. A paixão simplesmente passa. A paixão simplesmente. A paixão.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Tempos de Natal

(Track 08 - River)


Windy times. That restless wind brought by the month of December, along with the crowds invading the shopping malls and making all domestic tasks more difficult because of the giant queues and traffic jams. 

Maybe the wind made people more uneasy about themselves. By now, everyone was starting to get somewhat tired of seeing the same four digit number printed on top of all the sheets of the already wore-out calendar. 

December is a time of the year when almost everything seems to be finally falling into place. Things like work, personal projects or relationships usually tend to wait for a time like that,  when matters can be resolved without the guilty feeling of not having given enough time for the problems to look for a solution. December is a time of the year when things can be comfortably left-off where they are, or even completely forgotten while one would give in to the flow of the streets, not without some fear of drowning in the strong currents.

Of course all that is an illusion, for any happy member of the capitalist society knows that things do not have an ideal time of the year to begin or to end, despite what the boss, lover or television would say. Nevertheless, December appears to be a good month to end or begin things. A time as good as any other time of the year, had it not been for its vague sense of closure. A sudden perception that the year is almost over and there’s little time left to fix what still needs repair before the new year starts to show you the uselessness of all your new year’s resolutions. 

Another well-known fact is that when all appear to be settled, there’s always a feeling of incompleteness that haunts the soul and starts an internal movement that could easily be confused with the nasty wind blowing out there in the streets and annoying the shoppers with all those bags and packs. Most of them would come back to an empty apartment and eat a microwave meal while watching the same television show until they fall fast asleep before midnight. Everybody knows shopping is tiresome.

December represents the impossible desire of making a lot of money and then quit this crazy scene. One more month, you think, until you have enough to quit your job, leave your lover and start over doing what you like to do the way you’ve always wanted to do it. Your way. Next month. December couldn’t be better as the last month month of your old life. The timing is perfect.

And then, when your lover begins to cry as soon as you start talking about your plans, all that freedom suddenly vanishes and is quickly replaced by guilt. What an ungrateful person you are, having such a nice job and such a caring lover. What do you take your life for? What do you expect to get with these crazy plans? And just now that you are buying a new apartment. You still have an awful lot of shopping to do. Couldn’t you wait until next year and not spoil the holidays? 

December is a windy time of the year. A perfect time to make a change. That’s your lover talking. You two are so lucky to have found a shop on sale when the prices are going sky-high because of the holidays. And you still have some time until New Year arrives with its promises of happiness and fulfillment. It’s incredible how the streets are busy. It’s almost like a river of people going in all directions at once. It never stops its flow and it makes you want to hold your breath. But it’s so beautiful it also makes you want to say ‘thank you god’ for the crazy world and for its twists and turns. Your lover smiles back at you and says you just have to be cautious not to let the wind make you drop the shopping bags. 


(Da série 10 shades of blue, escrita para o disco Blue de Joni Mitchell)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Memórias

Pesquisando exaustivamente sobre memória, cheguei a algumas conclusões, pessoais demais para serem expostas aqui, ou mesmo partilhadas verbalmente com quem quer que seja. Aliás, esta é a principal conclusão: as memórias têm um ciclo de existência personalíssimo. Não sei se acredito que se trata de uma evolução, nem de um desenvolvimento linear do ponto de vista temporal. São mesmo ciclos, cujos ritmos são determinados pelas idiossincrasias de cada um. As memórias vão e vêm... Aparecem, desaparecem e reaparecem, modificando-se e modificando-nos a cada novo contato. É um processo vivo, sem cheiro de fundo de baú. As memórias não têm medo da luz do sol, nem de movimento. As memórias são por demais ousadas. Invadem nossa vida quando bem entendem, sem dar motivos, e vêm nos exigir uma posição. Elas nos perguntam: quem é você? O passado passou, mas e você? Eu, muito ocupado com o presente (e como ele nos toma tempo!), não tenho tido paciência com o passado. Minhas elaborações intelectuais sobre a memória me fazem olhar cada vez mais para o futuro. Me fazem entender que o futuro se constrói dentro do agora. É o passado que me diz para seguir em frente. Mas ele diz isso sem saber. Onde o passado diz: olha pra mim! Eu escuto: vai em frente! Anda logo! E eu vou. Não vou pedir desculpas ao passado se ele bater na minha porta e eu não estiver lá para atender...



terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O movimento do corpo e a imagem em movimento

Companhia canadense Lalala Human Steps, do filme "Amelia", dirigido pelo coreógrafo Édouard Lock.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Bichos

Existem números que são percebidos visualmente: dois, três, seis. Baratas que saem debaixo da caixa que levanto para ver se há mais alguma coisa para arrumar naquele quarto vazio e sujo. Seis, nove, doze. Baratas demais para contar. Asas translúcidas, patas aos pares. Três, três, seis. Parece insuficiente falar de asas e patas quando se descreve uma barata. A barata é um bicho que voa. Não... isso também é insuficiente. O que dizer então? Que elas não me assustam como deveriam? Não conheço o nojo. Deixo que passem por cima dos meus pés, em direção a qualquer outro lugar onde possam se esconder. Nenhuma delas sobe por minhas pernas. Pernas, pés, dedos, chão. Junto dali dorme um cachorro. Um bicho que tem patas. Insuficientes patas que de nada servem quando me aproximo dele e piso em seu dorso. A sola do pé roça de leve as vértebras. Simétricas. Como os intervalos de tempo entre suas respirações. Forço um pouco o pé: acorda o bicho. Antes que possa latir, sinto sob meus pés seus ossos quebrando. É instantâneo. Penso que antecedi aquela sensação em alguns instantes. Talvez a dor de uma possível culpa me tivesse feito desistir. Não foi o caso. Nenhum remorso. Nada. As baratas já deviam estar bem alojadas em algum canto escuro. Lembrei de suas antenas e do modo como costumavam se mover no ar. Graciosas. Sorri. O cachorro não tinha culpa de nada. Nenhum remorso. E eu não tinha pensamentos na cabeça. Sentimentos debaixo dos meus pés descalços. Chão, dedos, pés, pernas. Cabeça. Vazio. Alma é um lugar que nunca existiu. Pelo menos não no caso dos cachorros. Qualquer defensor dos direitos dos animais concordaria comigo. As baratas são muito mais ameaçadoras. Elas também não têm alma. Imagine se venderiam nos supermercados frascos com veneno para eliminar cachorros? Apesar dos rótulos, os venenos funcionam indiscriminadamente. Os pés não foram feitos para matar. Nunca um cachorro me mordeu. Matei um como se fosse uma barata. Elas não gritam. Depois basta uma vassoura ou um pano de chão molhado. Pode haver até alguém que agradeça o gesto. Estive deitado nesse chão por tempo demais. O frio das lajotas. O sol insuficiente para me descrever. Respirações simétricas e inaudíveis. Contei as baratas que passavam. Números que são percebidos visualmente. Três, quatro, nove. Dois. Pés. Dedos, pernas, caixa. Senti uma pressão nas costas e depois uma ausência. Como se eu não estivesse ali. O quarto vazio. Cabeça inútil. Sem alma por dentro. Quando me acharem não saberão que estive morto o tempo todo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Objetos

Chão


A cada passo, os pés se cobrem de infinitas possibilidades de tropeços que não chegam a tocá-los, mas formam em volta deles uma espécie de parede transparente que acaba por fazer com que as pernas se equilibrem melhor. Cada passo é ornamentado por infinitas possibilidades de quedas. O plano do solo é imaginário, já que se caminha sobre um abismo sem fundo. Um abismo vastíssimo. Pleno de vazio. Não há saída. Não há escapatória. Por esta razão, caminhamos com passos mais seguros. A infinita queda, que efetivamente acontece a cada passo, não é sentida pelos que caminham, pois o vazio é total. Um penhasco precisaria de limites que este vazio não pode oferecer. Em última análise, pouco importa a direção para onde andamos, ou mesmo se estamos ou não na parte superior do solo. O plano do chão é infinito. E a queda, plena, sem as intermitências aparentes da vida.


Cama


É um corpo belo entre os lençóis. Enrodilhado como um verme que se assusta à proximidade do predador. Observando de outra maneira, diria que a pele deste corpo é jovem e viçosa. Deixa perceber as formas de músculos rijos e fortes. Mas tudo isso estragaria a comparação com o verme, branco e pulsátil. E aquele corpo não é nada mais que isso naquele momento: verme assustado e frágil. O predador não seria outro que um passarinho. Observando de outra maneira, diria que sua plumagem tem belas cores e uma textura que evoca inevitáveis vôos pelos céus do mundo. Mas tudo isso se apaga por obra das terríveis garras que ele agora aponta com um olhar afiado ao seu amado verme. O objeto de seu apetite sem escrúpulos. Ave de rapina disfarçada de inofensiva criatura aos olhos nus de qualquer observador incauto. Do passarinho não se pode dizer que tenha o viço que a simples palavra - pele - faz vibrar em que a pronuncia. É bicho sem língua, desprovido das lúbricas sensações que verme e corpo liberam no ar. Secreções venenosas que catalisam tempo. Apenas uma fração de segundo sintetiza eras inteiras: agora um se agita dentro do outro, que será para sempre refém desta refeição.


Cigarro


De repente, sou capaz de fumar por horas a fio. Acompanhando com gosto as volutas que a fumaça desenha dentro dos meus pulmões, a caminho das vias respiratórias superiores. A destreza de um rio voluntário que caminha não com membros de água, mas com a fugacidade de um olhar diáfano. Mesmo sem elaborar em palavras, é isso que sinto quando puxo a fumaça para dentro de mim. O ar cinzento passa pelo interior gelatinoso da garganta quase sem atrito. Apenas o suficiente para que eu sinta quando já é hora de iniciar o movimento contrário. Penso que se estivesse dentro do mar numa noite escura e quente sentiria algo muito parecido, apesar das advertências de que a água salgada esconde perigos invisíveis (dos quais sempre duvidarei). Sinto o arrastar calmo das ondas em seu movimento lânguido. Sinto uma serenidade não compatível com qualquer tipo de movimento ou adjetivos. Entretanto, lá estão as palavras a se moverem. Frêmito, vento, espirais... Intermináveis instantes se passam antes que eu possa me dar conta de que estou preso numa ilusão: nos sonhos não há olfato ou paladar.


Sandálias


Não escuto o mar, mas posso vê-lo do alto da janela de um domingo transparente que retine de claridade. A calma cotidiana chega trazendo uma saudade que há muito não lembrava que existia. O chão frio de ladrilhos já nem se lembra da madrugada silenciosa que passou ignorando a própria insônia. Dois abraços acordam na mesma hora e se olham com o espanto habitual das horas felizes. Todo o mundo de preocupações e compromissos; toda a vida de motivos insuficientes, mas peremptórios; tudo que se impõe no caminho da livre vontade; mais ainda, tudo aquilo que esmaga a dança infantil dos desejos mais profundos; e ainda além, toda razão que aniquila e paralisa. Absolutamente tudo se resumia a levantar da cama, vestir uma camiseta e sair pela manhã com a tarefa despreocupada de comprar pão para o desjejum.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Azul





(Pavão Misterioso, Aquarela sobre papel. Dez/08)